quarta-feira, 17 de agosto de 2011

Ícaro

O consultório era uma sala pequena com as paredes verdes. Eu estava deitado de barriga para cima e, não que fosse desconfortável, mas a cor é que me incomodava. Era um divã roxo, tinha três pernas e apoio para a cabeça. Os pássaros cantavam uma

- Você sabe por que está aqui?

- Imagino que não.

A doutora tirou os óculos e deixou-os sobre a prancheta carcomida pelo uso. Eu não fui uma criança fácil de lidar. Uma vez eu estava sentado na praia

- Conte-me sobre seus planos para o futuro.

- Imagino que eu vá ser um desses velhos rabugentos que

- Claro que imagina.

- Perdão?

- Sobre o futuro só podemos imaginar.

No meu caso não era bem verdade. Na época, eu gostava de imaginar que o futuro dependia só de mim e do que eu quisesse

- Prossiga sobre o futuro.

- Se eu sobreviver a mim mesmo, talvez eu seja um velho rabugento desses que criam galinhas cachorros gatos peixes.

- Conte-me sobre seu passado recente.

- Recente é bem relativo.

- Você não é tão velho.

- Eu peguei um ônibus na Praça Cívica e cheguei há quinze minutos.

Ela me encarava e eu encarava a pomba na janela.

- Bem,

- Imagino que eu tenha ficado bêbado e lido Dostoievski.

- E o que mais?

Eu andava tendo umas vontades de pintar, esculpir e o caralho. Nada que não fosse passar.

- Posso acender um cigarro?

A doutora me alcançou o cinzeiro, se levantou e abriu a janela.

- Olha, talvez eu tenha feito outras coisas. Imagino que a polícia não concorde com a maioria delas e que vocês queiram me julgar às vezes.

- Não estou aqui para te

- Ouça, eu não sei o que tinha naquela pasta que eu trouxe, mas talvez eles tenham se precipitado.

- E você talvez tenha se precipitado duas ou três vezes.

A vida que levava então era bem desregrada. Pó, bulimia e poesia. Não achava que fosse grande coisa, mas algumas pessoas tinham opiniões diferentes. Um curió pousou sobre o parapeito e ficou olhando lá para fora. Não tinha notado que estávamos ali.

Pigarreei e prossegui.

- Vocês acham que foi algum caso de amor?

- Eu não acho nada por isso estou te perguntando.

- Isso é uma consulta ou uma entrevista?

O curió cagou e se mandou. Ela não me respondeu.

- Você imagina que essa sua conduta autodestrutiva se relaciona de algum modo aos livros que lê?

- Doutora, o que você sabe dos livros que leio?

- Você não me respondeu.

Apaguei o cigarro e me sentei.

- Eu imagino que não.

A estante dela estava cheia de livros em inglês e alemão. E ela tinha umas pernas muito bonitas.

- Você se considera sexualmente ativo?

- Ativo ou passivo, tanto faz.

- O que você quer dizer?

Havia alguns meses que me diagnosticaram com um princípio de câncer de pele. Começou com uma pequena verruga avermelhada que não parava de crescer. No começo eu a mordia para fora, mas um dia me fizeram consultar uma dermatologista.

- Quando você começou a usar drogas?

- Drogas é um conceito relativo também.

Ela anotou alguma coisa na prancheta e me encarou de novo.

- Dipirona sódica aos 12.

- Você se considera viciado?

Acendi mais um cigarro e a encarei de volta. Ela anotou mais alguma coisa.

- Você sempre quis ser psicóloga?

- Aos 3 você aprendeu a ler sozinho. Aos 5 foi levado a um psicólogo pela primeira vez. Aos 6 começou a tomar inibidores cerebrais e os tomou até os 8. Com 14 você foi internado por subnutrição acarretada por bulimia. Desde então você passou por três comas alcoólicos, foi fichado como usuário de maconha e teve duas pneumonias depois de começar a fumar.

Não achava que tinha uma conduta autodestrutiva. Eles fizeram isso por mim.

- Você acredita em Deus?

- Não sei se acredito nele e se ele acredita em mim.

Era verdade, não que eu não acreditasse, mas tinha minhas dúvidas.

- Olha, eu não sei onde vamos chegar com isso, mas eu continuo sem saber por que estou aqui.