quarta-feira, 29 de junho de 2011

Solidão, Sol sustenido

Quando você me faz falta

Peço que a Lua me traga

Nas asas de fraco verso

Folha, semente e baga


E se não as tenho

Quero que me faça Ursa

Sem calor, minha culpa

E estar próximo da Lua


Ursa feito, desejo

Girar no desalento

Mar que não toco

Desejo de momento


E sem o abraço do mar

Ser de luz não basta

Cinosura, peço que traga

A piedade de Jocasta


De luz feito, não me falte

Venha logo, não se atrase

A espera me consome

Luz na noite, não se afaste

A súplica

Deixa, deixa eu ser sua

Em cada centímetro de pele escura

Meu peito aberto e a pele nua

Ser sua mulher, fazer loucura


Deixa, deixa eu ser bela

Na noite clara, na rua deserta

Larga a porta aberta

Ter um romance de novela


Deixa, deixa eu ser Juno

Quero parir deuses pro mundo

Esse nosso cochicho noturno

Meu coração moreno sem rumo


Deixa, deixa eu ser vexame

Escrava que te abane

Seja tu meu amante

Esse amor infame


Deixa, deixa eu ser flor

Nesse seu teatro sem ator

Minha raça, nossa dor

Seus palpites, seu calor


Deixa, deixa eu ser menina

E me deixa fora da sua agonia

terça-feira, 28 de junho de 2011

Quasi allegro, alla turca

Era uma vez um pequeno carneiro que vivia com sua mamãe em um grande campo. As colinas eram suaves, a grama sempre verde e havia árvores aqui e ali com sombras onde se podiam descansar os joelhos depois de caminhar. Mas havia o bosque. Lá se ouviam sussurros. E também era onde morava o lobo.

Um dia, a mamãe descansava embaixo de um pé de maçã e o carneiro não conseguia dormir. O sol ia alto e o céu era de um azul muito limpo, exceto por umas nuvens que se escondiam por detrás das colinas, onde a vista não alcança.

O pequeno se levantou devagar para não acordar a mamãe e disparou pelo campo. Corria sem destino, queria sentir o vento roçando os pelos ainda curtos. Correu por um bom tempo, não sabia exatamente o quanto, de modo que já estava fora da vista de mamãe, oculto pelas colinas. Quando deu por si, estava perto do bosque. Havia um cheiro diferente no ar.

O carneirinho ouvia os pássaros cantando calmos lá dentro, estar do lado de fora era chato. Sua mãe sempre o preveniu para que não entrasse no bosque, pois era onde o lobo morava. Uma vez no bosque, não havia saída. Ele não pensava muito no bosque, mas ali os pensamentos enchiam sua cabecinha.

Então, ele viu o lobo, que já o tinha visto. Ele sempre o imaginara diferente. No que lhe cabia, lobos eram sempre pequenos, esqueléticos e pelos longos ou enormes, musculosos e pelos curtos. Aquele era um lobo diferente, não sabia nem mesmo se aquele era um lobo. Era um animal muito bonito, de pelos grisalhos, que apesar de bagunçados, eram muito limpos, e sua estatura era aceitável. Mas seus olhos revelavam uma natureza desconhecida, selvagem talvez. O animal mais bonito que já vira.

O lobo estava muito próximo, seu hálito era de sangue, mas não assustava o pequeno carneiro. As folhas balançavam, os pássaros haviam parado de cantar. O lobo passou pelo carneiro, soltou um rosnado e seguiu em frente. O pequeno se virou e olhava-o maravilhado.

Ao longe, ouviu os berros de sua mãe, que o procurava. O lobo olhou na direção dos berros e abriu bem as narinas. Como continuasse a olhar para o lobo, sobressaltou-se quando este uivou alto. Os berros aumentaram e ele correu na direção deles, oposta do lobo.

Correu por muito tempo, mas não encontrou sua mãe. O sol já se punha, as sombras eram grandes, o ambiente estava cheio de silvos, farfalhar de folhas e já não se podia ver tão longe. O terror enchia o coraçãozinho do pequeno carneiro, o cheiro do hálito do lobo persistia na memória. Por mais que corresse, não sabia de onde vinham os berros da mãe, cada vez mais altos e distantes. Ao descer uma das colinas, o pequeno caiu e rolou para um monte de folhas amontoadas ao pé de uma macieira. Berrou com toda sua forca, queria que aquelas sombras se afastassem. Ouviu passos muito próximos, rápidos, mas não conseguia abrir os olhos. Quem se aproximava vinha rápido, decidido. Berrou mais alto ainda. Agora corria em sua direção.

Enquanto berrava, sentiu uma lambida na sua orelha. Sentia o cheiro de mamãe, mas não conseguia enxergar, pois já estava muito escuro. Adormeceu.

Quando acordou, viu o lobo deitado perto da arvore. O dia era cinzento, feio, o ar cheirava a ferrugem. Ainda sentia o cheiro de mamãe, mas estava muito mais fraco. A bocarra do lobo estava suja de sangue. Então entendeu. Mamãe se fora. Berrou o mais alto que pode, depois teve medo de acordar o animal deitado. Correu o mais que pode, sentia os olhos do lobo acompanharem cada movimento seu, mas corria sem olhar para trás. Correu por muito tempo, ate que a grama deu lugar a uma vegetação mais rasteira e esparsa. O calor era grande, o cheiro de ferrugem havia aumentado. O terreno era solto, cada passo que dava, enterrava os pés na areia.

Foi então que viu o terreno ficar de um azul muito profundo, mas diferente do céu. Havia um rugido alto no ambiente. Não era constante, mas se repetia. O cheiro de ferrugem estava mais forte agora. Aquela imensidão azul parecia querer agarrar a terra, mas sempre recuava.

Não havia meios de voltar para o campo, já não se lembrava da direção que viera. Deitou-se sob a sombra de uma árvore esquisita, muito fina, com galhos verdes e um corpo anelado. Adormeceu, estava muito cansado.

Ao acordar, foi andar pela beira da água e conhecer o lugar. Levou muito tempo para se acostumar, mas agora já sabia se virar. Arrastou alguns galhos caídos para perto da árvore, descobriu quais plantas eram boas de comer, aprendeu a não beber daquela água que fazia barulho. Mas a lembrança do lobo persistia. Não que fosse somente de raiva, havia também um sentimento de maravilha.

O tempo passou e, um dia, o velho cheiro do bosque se fez forte de novo. O pequeno bebia água numa laguna próxima e estava de cabeça abaixada, mas o cheiro era inconfundível. Voltou sua cabeça e viu o lobo, imponente, no alto de uma duna. Este o encarava. O cheiro de mamãe não estava mais lá. O pequeno correu em sua direção, o lobo deitou-se e lambeu-lhe o focinho. O carneiro se assustou. Não esperava que o lobo fosse ter carinho por ele.

O carneiro deitou-se junto do lobo, apoiou sua cabeça no chão e então notou que o lobo estava mais velho, mas ainda estava em seus dias de glória. Mas o carneiro já não era bobo.

A partir de então, os dois sempre foram vistos juntos, o lobo levou-o de volta para o bosque, onde passaram a viver juntos. Conforme o carneiro crescia, o lobo dependia cada vez mais dele. Aquele já se tornava um carneiro grande, bonito, de pelos alvos e isso incomodava este, pois outros lobos já olhavam para ele, mas não se aproximavam.

Um dia, um lobo mais jovem se aproximou do carneiro e lambeu-lhe o focinho. O lobo encheu-se de ódio e avançou no intruso, que cobiçava aquilo que tinha de mais caro. A briga foi feia, o lobo saiu bastante machucado, mas vitorioso. Fez o carneiro vestir-se com a pele do adversário e, desde então, este passou a ser visto como lobo pelos demais animais.

Com o tempo, o lobo foi ficando mais fraco e mais dependente do carneiro, que o tratava como um superior. Os outros lobos avançavam cada vez mais dentro do território do lobo, mas o carneiro não fazia questão de defender as fronteiras, não era de sua natureza nem de sua vontade. Até que um dia foram finalmente expulsos do bosque. O lobo, já quase cego, apenas acompanhava o carneiro pelo cheiro. Este o guiou pelos campos, já sabendo onde queria chegar. Andaram por horas, o lobo já estava muito fatigado de tanto andar. Estava num precipício que acabava sobre o mar. O oceano rugia, atirando-se contra as pedras, com seu abraço de titã.

O lobo parou a beira do precipício e olhou para baixo, não enxergava de onde vinha o barulho. O som de passos muito rápidos vindo em sua direção o assustou e o fez saltar para o lado. A cabeça do carneiro atingiu um cheio suas costelas e o lançou no ar sobre o despenhadeiro. O lobo caiu, imerso em sua própria cegueira, na direção dos rugidos. A água fria o abraçou como a um filhote. Tentou nadar e subir, mas o oceano o arrastava como uma folha na ventania. O carneiro olhava-o se debater do alto do precipício, ate que uma onda arremessou o lobo contra as pedras. O corpo do lobo ainda foi jogado contra o paredão mais algumas vezes, até que foi esquecido em cima de uma pedra, onde ficou.

O carneiro esperou algum tempo para ver se o lobo se mexia. Como nada acontecesse, deu alguns passos para trás e pulou do penhasco. Pensava em mamãe quando sentiu o abraço frio da água.

Tornar estranho, verbo alienar

Não somos alienados, só deixamos de nos preocupar.

Mas você ouviu a boiada?


Boiada das chacinas

O preto que morrer em toda esquina

O primeiro que comer a mina

Chuva de rua que a prefeitura não ilumina

Você tocou essa boiada?


Boiada dos nordestinos

Filho que nascer de pai menino

O pasto que já vai diminuindo

Romaria e novena pro pequenino

Você tocou essa boiada?


Boiada das displicências

Hospital que desconhece de ciência

Embrião que vira experiência

A Moreninha e Inocência

Você tocou essa boiada?


Boiada dos imbecis

Dividiram essa porra em mil Brazis

De tanto beber, eu esqueci

Mataram Xavante, Tapajó e Aracy

Você tocou essa boiada?


Boiada do Brasil

Só não morreu quem já dormiu

Patativa e o Vinil

A banda passou e só você não viu

Você tocaria essa boiada?


Boiada das peçonhas

A puta já perdeu a vergonha

Aborto, casamento e maconha

Plenário, Congresso e maconha

Você tocou essa boiada?


País da piada

Lei escondida

Documentos maquiados

Ou História nem contada