Sentado em sua cama, Deocífero era um chumaço de algodão. Sentia-se feito da matéria das nuvens. Flutuava na imensidão do Senhor. Na linha da visão, o tudo e o nada eram o mesmo. As casas, o morro, a torre da catedral, a caverna, a cachoeira, tudo era insignificante quando se olhava do infinito.
Lá, no alto, sabia que as tentações do Diabo não podiam alcançar. Ritinha não iria para o Céu.
-Ah, Ritinha!…
Ritinha era uma mulher impura. Sabia que ela o olhava durante as missas, quando se levantava para tomar a hóstia. Sentia aqueles olhos de caxinguelê. Ela o olhava. Sabia disso. Por certo que nunca vira diretamente seu olhar, mas ela o dizia com seu jeito de andar, seu rebolado dizia isso. Às vezes, deitado na cama, Deocífero ouvia a voz da pecadora de Ritinha chamando por seu nome da mesma forma que a ouvira fazê-lo na sorveteria.
Ritinha do vestido de chitão roxo, Ritinha do laço de fita, Ritinha da voz melodiosa.
Enquanto eu corria, sim, eu ia - Arrulhava Ritinha - lhe chamar…
Ainda que belo, o canto de Ritinha era triste. Deocífero sabia que Ritinha cantava para ele, aquela serpente. Víbora transvestida de pomba, trazia uma maçã à boca, mas anunciava como ramo de oliveira. Queria fazê-lo trair a memória de sua mãe, sua querida mãe, a quem fizera uma surda promessa póstuma de nunca amar outra mulher, como a amara.
Havia 27 anos que a mãe partira, seu olhar não era de pena, era de amor, ternura. As vezes que ela o levava para a casa do Padre e confessava seus pecados, a porta entreaberta, conforme eram os pecados, mais alto gritava o Padre, a dor consumia-lhe o corpo, o Padre sofria pelos pecados e a cama que balançava mais forte, o telhado que perdia as telhas, as portas que rangiam, o Padre que gritava, a mãe, os gritos, as lágrimas, as mãos, o Padre que se deixava cair.
A mãe lhe dizia que o Padre tirava o pecado de seu corpo fazendo aquilo e que o líquido que escorria entre suas pernas era santo, era o milagre de Deus feito matéria. Deocífero não entendia o que era pecado, mas o Padre tirava os pecados com frequência. Tirar pecados era extenuante e aquele era um santo homem que se sacrificava para purificar os fiéis. No entanto, nunca vira ninguém mais ir se confessar. Segundo a mãe, as pessoas iam sem ser vistas, por que pecar é feio.
Deocífero se sentia limpo, apesar da dor que o Padre lhe causava ao introduzir o falo divino em si.
Será que Ritinha se confessava?
Deitado no chão, pensava se Ritinha não gostaria de se confessar com ele, deixá-lo derramar a matéria da purificação, o Deus feito líquido.
O amor é o filho caçula da loucura. A carne que se rasga sob as chicotadas, chicotadas geradas por pensamentos que ofenderiam a Santa Mãe.
Deitado no chão pensava, na purificação de Ritinha. Não havia ninguém mais indicado que ele. Ele que trouxera a luz para a mãe dormindo impura. Havia sido purificada pelo Padre sem ter pecado. Fora preenchida com o Santo em noite clarinha de Lua mansa. O telhado fora recolocado, a balança seria equilibrada, o peso do Padre seria contrabalanceado por uma criatura santa. Não podia permitir sua vinda.
A mulher deitada fora consumida pela luz, bem como a casa. Todas purificadas, a mãe se juntara à Mãe de Deus. A mãe gritava, mas não conseguira fugir em sua lentidão parturiente. Na fuga, com o calor, a santa criatura fora parida ali, o primo-líquido escorria pelas pernas da Santa, que gritava. As flamas lambiam suas pernas até que o santo nascera. Mãe e filho, ambos renovados por Hélio.
Deocífero purificaria Ritinha, assim como tinha feito com todas as outras santas.
Iria segui-la pela rua da catedral, iria se aproximar dela no escuro. Nas sombras da noite, espreita o desejo. Quando ele pegasse em seu cabelo, ela iria tentar correr, todas tentavam. O demônio que ali estava iria ser mandado de volta para o Inferno e ela estaria livre. Ela gritaria como todas. Ah, os gritos. Estes acordavam o Deus em si. Este Deus pulsava por libertação e, quando a fusão entre Deus e seu depositário se completava, os sentidos se desvaneciam e seus olhos brilhavam.
Deocífero se transformava em besta divina, a pecadora se debatia e chorava em sua ingratidão. O cheiro de Ritinha entrava por suas narinas. A carne macia, as pernas retesadas, ele sentia.
Penetrava com violência, o Deus libertava-se de suas correntes. O Deus forçava sua saída, seu receptáculo tentava se libertar até o derradeiro momento. Deocífero a levava para casa, separava a mente, a alma e o corpo. A mente pecaminosa de Ritinha iria tomar parte da refeição quando ele devorasse sua alma ainda gotejante, retirada ainda pulsante do peito pecador. Toda a carne deveria ser purificada. O corpo iria ser purificado pelo próprio Sol, representado pelas chamas.
A mente tinha destino especial. Esta seria colocada na parede, tomando lugar junto às demais mentes de pecadoras. Juntas a elas estava o corpo santo do Santo Padre, sua tez estendida pela parede fora retirada com cuidado, ainda que o Padre gritasse por perdão. Um santo homem não precisa de perdão.
Deocífero se sentia próximo do Senhor quando mandava aquelas mulheres para a santidade. Deocífero era o Caronte submetido a Ele. As chicotadas após cada purificação eram afagos jubilosos do Senhor.
Ritinha era de Deus, pertencia a ele. Naquela rua, Ritinha seria mandada de volta.
quinta-feira, 8 de março de 2012
Descarga de Consciência
O Sol aparecia no zênite enquanto a Lua se partia.
O rubi refletido, o rubi refratado.
Ao longe olhos de citrino brilhavam brilhavam brilh
avam
m
.
Os olhos de ônix, oblíquos, mentirosos.
osos
só
ossos
.
A estrela morta, uma gigante vermelha, uma supernova.
Estrela de nêutrons, engolidora de galáxias.
Devoradora de almas.
As imensas algemas da distância que impedem o toque.
As belas pétalas da rosa-choque.
O choque da onda. Da maré. Do vento solar.
Este doce elixir, este seco veneno.
O entorpecimento induzido, a chama que não se apaga.
O fogo que não se acende, a brasa que arde em silêncio.
O mundo que gira, a noite que convida.
Engolidos fomos ao nascer.
Engo
Lidos
En
dos
lindos.
A cultura do massacre.
O aparentar.
O aparentado.
A voz silenciada do esquecido.
Esquecidos foram os mudos.
A música que se repete, a medalha que se compete.
As mesmas notas escorrem pelos meus ouvidos.
Ouvido o brado que pelo Ipiranga ainda ecoa, nada muda.
Secas ondas mecânicas que não agitam partículas, apenas constroem a arquitetura da destruição.
As guerras. Ah, as guerras.
Belas guerras, molas da civilização.
Guerras por comida?
Guerras por alucinação.
Minha rima fraca, meu bonde que para.
Os pelos que se arrepiam ao toque da faca.
Escorre ndo
És tu correndo.
Sois vós.
Correm as águas, voam as águias.
Correm as agulhas, máquinas de costura.
Vem a bomba!
Deitam-se os resíduos.
Rádio ativos.
Rádio passivos
Radio lários.
E estes mortos hilários
Imagens doentias.
No mundo branco, no mundo seco.
Na imensidão em que me cerco mais vasto é meu coração.
O rubi refletido, o rubi refratado.
Ao longe olhos de citrino brilhavam brilhavam brilh
avam
m
.
Os olhos de ônix, oblíquos, mentirosos.
osos
só
ossos
.
A estrela morta, uma gigante vermelha, uma supernova.
Estrela de nêutrons, engolidora de galáxias.
Devoradora de almas.
As imensas algemas da distância que impedem o toque.
As belas pétalas da rosa-choque.
O choque da onda. Da maré. Do vento solar.
Este doce elixir, este seco veneno.
O entorpecimento induzido, a chama que não se apaga.
O fogo que não se acende, a brasa que arde em silêncio.
O mundo que gira, a noite que convida.
Engolidos fomos ao nascer.
Engo
Lidos
En
dos
lindos.
A cultura do massacre.
O aparentar.
O aparentado.
A voz silenciada do esquecido.
Esquecidos foram os mudos.
A música que se repete, a medalha que se compete.
As mesmas notas escorrem pelos meus ouvidos.
Ouvido o brado que pelo Ipiranga ainda ecoa, nada muda.
Secas ondas mecânicas que não agitam partículas, apenas constroem a arquitetura da destruição.
As guerras. Ah, as guerras.
Belas guerras, molas da civilização.
Guerras por comida?
Guerras por alucinação.
Minha rima fraca, meu bonde que para.
Os pelos que se arrepiam ao toque da faca.
Escorre ndo
És tu correndo.
Sois vós.
Correm as águas, voam as águias.
Correm as agulhas, máquinas de costura.
Vem a bomba!
Deitam-se os resíduos.
Rádio ativos.
Rádio passivos
Radio lários.
E estes mortos hilários
Imagens doentias.
No mundo branco, no mundo seco.
Na imensidão em que me cerco mais vasto é meu coração.
A luz que escapa por entre meus poros te dá uma pista de quem eu sou.
A cidade que se consome pela luz.
A luz que purifica.
A boa luz.
Luzes de um novo tempo.
Tempos de um novo homem.
Homens de um novo ciclo.
Ciclos de uma nova atitude.
Atitudes de uma nova ordem.
Ordem da Luz.
Iluminados somos, pois a luz nos toca.
Iluminados somos, pois a luz nos atravessa.
Luminoso é o nosso guia.
Luminoso é o nosso mestre.
A luz encanta, mas é verdadeira.
Falo da luz que nenhum prisma decompõe.
Falo da luz que orienta os povos.
Aquele que traz a luz é julgado por muitos que desconhecem seu poder.
Quem sois vós para julgar aquele que é tão antigo quanto a própria existência?
Ele vem para nos libertar, virá em vestes de guerra, veio com seus cavalos.
Lux
Lumia
Illuminattus
A cidade que se consome pela luz.
A luz que purifica.
A boa luz.
Luzes de um novo tempo.
Tempos de um novo homem.
Homens de um novo ciclo.
Ciclos de uma nova atitude.
Atitudes de uma nova ordem.
Ordem da Luz.
Iluminados somos, pois a luz nos toca.
Iluminados somos, pois a luz nos atravessa.
Luminoso é o nosso guia.
Luminoso é o nosso mestre.
A luz encanta, mas é verdadeira.
Falo da luz que nenhum prisma decompõe.
Falo da luz que orienta os povos.
Aquele que traz a luz é julgado por muitos que desconhecem seu poder.
Quem sois vós para julgar aquele que é tão antigo quanto a própria existência?
Ele vem para nos libertar, virá em vestes de guerra, veio com seus cavalos.
Lux
Lumia
Illuminattus
Mãe
Quando você partiu
Meu coração, partiu
Meu coração partiu
Meu coração se partiu.
Eu poderia ter sido um filho melhor.
Eu deveria ter sido filho melhor.
Eu seria um filho melhor,
Se eu soubesse.
Mãe.
Essa a última música
É o choro fininho
A lágrima que corre
É o sonho que dorme
A doce senhora
A grande memória
O curto afago
O cigarro que apago
A dor que não se vai
A falta de um pai
O renascer do amanhã
O cheiro seco da maçã
Quisera eu
Trazer-lhe as floras do amanhã
Quisera eu
Levar-lhe a luz do amanhã
Restam-me os cacos.
Quero tê-la de volta
Em meus braços
Quero tê-la de volta
Em meus abraços
Quero tê-la de volta
Em minha vida.
Quando eu me for
Quando finalmente for
As algemas quebrar
As ligações romper
A infância perder
Mãe, como vou chorar
Quando você deixa cair
Eu caio
Quando você deixa cair
Meu mundo cai.
Eu preciso de você
De volta
Aqui
Comigo
Pelo menos mais uma vez.
Meu coração, partiu
Meu coração partiu
Meu coração se partiu.
Eu poderia ter sido um filho melhor.
Eu deveria ter sido filho melhor.
Eu seria um filho melhor,
Se eu soubesse.
Mãe.
Essa a última música
É o choro fininho
A lágrima que corre
É o sonho que dorme
A doce senhora
A grande memória
O curto afago
O cigarro que apago
A dor que não se vai
A falta de um pai
O renascer do amanhã
O cheiro seco da maçã
Quisera eu
Trazer-lhe as floras do amanhã
Quisera eu
Levar-lhe a luz do amanhã
Restam-me os cacos.
Quero tê-la de volta
Em meus braços
Quero tê-la de volta
Em meus abraços
Quero tê-la de volta
Em minha vida.
Quando eu me for
Quando finalmente for
As algemas quebrar
As ligações romper
A infância perder
Mãe, como vou chorar
Quando você deixa cair
Eu caio
Quando você deixa cair
Meu mundo cai.
Eu preciso de você
De volta
Aqui
Comigo
Pelo menos mais uma vez.
O voz da folha
Não sou aquele que cantará a miséria humana.
Não sou o que vai gritar por liberdade.
Venho trazer meu canto soluçado.
Trago sementes no coração, trago o choro fininho.
A vastidão do meu ser, a plenitude da minha humanidade.
Tão humano quando um cão,
Meu grito não será pelas injustiças mundanas.
Tampouco pelo amor que descarrego no sangue.
Amor não me vale a poesia.
Sou filho da loucura,
Meu grito vem de longe
Meu grito vem do fundo
Grito como anjos em combate,
Grito como demônios que se divertem.
A loucura me apraz.
O sofrimento é inerente ao ser humano
A dor é inerente e transcende a própria existência
O desespero é inerente aos sentimentos.
Não digo que não amo
Nada disse, nada digo.
O nada é belo por ser tão relativo.
A falta do amor não é morte, mas o estopim dela.
Não vou envenenar-me desse sentimento.
Diz-se que a dor educa e o sofrimento engrossa a casca.
Não sou o que vai gritar por liberdade.
Venho trazer meu canto soluçado.
Trago sementes no coração, trago o choro fininho.
A vastidão do meu ser, a plenitude da minha humanidade.
Tão humano quando um cão,
Meu grito não será pelas injustiças mundanas.
Tampouco pelo amor que descarrego no sangue.
Amor não me vale a poesia.
Sou filho da loucura,
Meu grito vem de longe
Meu grito vem do fundo
Grito como anjos em combate,
Grito como demônios que se divertem.
A loucura me apraz.
O sofrimento é inerente ao ser humano
A dor é inerente e transcende a própria existência
O desespero é inerente aos sentimentos.
Não digo que não amo
Nada disse, nada digo.
O nada é belo por ser tão relativo.
A falta do amor não é morte, mas o estopim dela.
Não vou envenenar-me desse sentimento.
Diz-se que a dor educa e o sofrimento engrossa a casca.
Ele, o mundo e eu.
Existia o mundo
Eu passava pelo mundo
Ele havia, e existia o resto do mundo
Ele tinha o mundo
Eu estava no seu resto de mundo
Existia outrem em seu mundo.
Então veio o fim.
Eu passava pelo mundo
Ele havia, e existia o resto do mundo
Ele tinha o mundo
Eu estava no seu resto de mundo
Existia outrem em seu mundo.
Então veio o fim.
Admirável gado novo
Todos trotavam trazendo trevosos trajes
Muitos mascavam macios melados
Iam andando, falando, olhando.
Todos trotavam olhando, pensando, mascavam molhado melado. Melando a boca, traziam tristes tratados, contratos, trabalhos. Pensando, andando, trotando, mascando.
Finas folhas farfalhavam fremindo com fracos fluidos.
O trem se aproxima:
-Bééé…
Moviam montes mudos, mundos mortos, múmias mantidas, mundos particulares.
Dia clarinho, sem nuvens.
Por mais, ou menos, que sonhassem todos se encaminham para a morte em um mundo que não é mais que um grande abatedouro.
Muitos mascavam macios melados
Iam andando, falando, olhando.
Todos trotavam olhando, pensando, mascavam molhado melado. Melando a boca, traziam tristes tratados, contratos, trabalhos. Pensando, andando, trotando, mascando.
Finas folhas farfalhavam fremindo com fracos fluidos.
O trem se aproxima:
-Bééé…
Moviam montes mudos, mundos mortos, múmias mantidas, mundos particulares.
Dia clarinho, sem nuvens.
Por mais, ou menos, que sonhassem todos se encaminham para a morte em um mundo que não é mais que um grande abatedouro.
Sobre sonhos e úteros
Grandes são as crianças, pois contêm em si o mundo inteiro. Vastas são suas sensações, a abrangência de seus atos. Pode-se abraçar o mundo com as pernas, nossa casa é a maior do mundo.
O que é a casa senão o útero do qual não queremos nos libertar?
Pequenos são os homens, pois não têm a magnitude infantil. Suas ações restritas pressupõem a morte do onirismo infante. Dizem que se deve alçar voo e deixar de vez o útero gerador.
No entanto, ocupamos um terceiro útero para nos sentirmos completos: O útero matrimonial.
Que são as esposas senão a segunda mãe?
Os menores seres do mundo são os adolescentes. Apesar da morte onírica, não temos controle das nossas vidas. Vivemos de influenciar o útero em busca daquilo que acreditamos ser bom, ainda que estejamos quase sempre errados.
Menores que lagartas, sem a mobilidade da borboleta, adolescentes são casulos. Imóveis e metamórficos.
Morremos aos poucos junto com nossos sonhos. A vida não se restringe à linearidade biológica. Somos feitos de 10% de lixo e 90% de sonhos.
Morrem os sonhos, morremos nós.
O que é a casa senão o útero do qual não queremos nos libertar?
Pequenos são os homens, pois não têm a magnitude infantil. Suas ações restritas pressupõem a morte do onirismo infante. Dizem que se deve alçar voo e deixar de vez o útero gerador.
No entanto, ocupamos um terceiro útero para nos sentirmos completos: O útero matrimonial.
Que são as esposas senão a segunda mãe?
Os menores seres do mundo são os adolescentes. Apesar da morte onírica, não temos controle das nossas vidas. Vivemos de influenciar o útero em busca daquilo que acreditamos ser bom, ainda que estejamos quase sempre errados.
Menores que lagartas, sem a mobilidade da borboleta, adolescentes são casulos. Imóveis e metamórficos.
Morremos aos poucos junto com nossos sonhos. A vida não se restringe à linearidade biológica. Somos feitos de 10% de lixo e 90% de sonhos.
Morrem os sonhos, morremos nós.
Tautos
Revirei a terra com as mãos, a sujeira enterrou-se em minhas unhas. A cor da terra somou-se à minha pele parda. A carne cor de terra que um dia seria devorada pelo chão.
Correndo de braços abertos para a morte, meu tapa-olho de pirata que balançava ao sabor de Bach.
E saber que, em família, melhor seria ser filho da outra, no caso, a santa.
Perceber que poer é coisa de poetisa.
Perceber que a existência é a catacrese do existencialismo.
Perceber que, se tratando de metáforas, o vice mata o versa enquanto este devora aquele.
O niilismo que te rasga as veias é coisa do passado.
Saber que o eterno beijo de Netuno e Urano não é mais que um abraço entre Eros e Tânato.
Perceber que a cada falha, uma corça quebra os chifres.
Perceber que a cada derrota, um César é filho do papa.
Perceber que a cada morte, um Malthus chora e nem vê.
O príncipe que não habitar na linhagem do derrotado, deve eleger ministros que extinguam o Estado, ou que o tomem para si.
Saber que na gênese da avenida fica a sede de Poder Nenhum.
Perceber que é no seu fim que a metáfora é um final aberto.
Perceber que é na rima fraca que o poeta morde a língua.
Perceber que é impossível e invariável passar das primeiras páginas.
A terra, a carne, a cor.
A Terra, o sangue, o rubor.
Saber que Andrômeda não terá Perseu.
Perceber que o gado de Gideão não é per capita.
Perceber que a guillotine não é por cabeça.
E mostrar aos meus semelhantes que refratados serão todos desiguais.
Correndo de braços abertos para a morte, meu tapa-olho de pirata que balançava ao sabor de Bach.
E saber que, em família, melhor seria ser filho da outra, no caso, a santa.
Perceber que poer é coisa de poetisa.
Perceber que a existência é a catacrese do existencialismo.
Perceber que, se tratando de metáforas, o vice mata o versa enquanto este devora aquele.
O niilismo que te rasga as veias é coisa do passado.
Saber que o eterno beijo de Netuno e Urano não é mais que um abraço entre Eros e Tânato.
Perceber que a cada falha, uma corça quebra os chifres.
Perceber que a cada derrota, um César é filho do papa.
Perceber que a cada morte, um Malthus chora e nem vê.
O príncipe que não habitar na linhagem do derrotado, deve eleger ministros que extinguam o Estado, ou que o tomem para si.
Saber que na gênese da avenida fica a sede de Poder Nenhum.
Perceber que é no seu fim que a metáfora é um final aberto.
Perceber que é na rima fraca que o poeta morde a língua.
Perceber que é impossível e invariável passar das primeiras páginas.
A terra, a carne, a cor.
A Terra, o sangue, o rubor.
Saber que Andrômeda não terá Perseu.
Perceber que o gado de Gideão não é per capita.
Perceber que a guillotine não é por cabeça.
E mostrar aos meus semelhantes que refratados serão todos desiguais.
Aí dorme a Revolução
Adélia arrumava a mesa pela última vez. Os copos de festa, os pratos de louça, a prataria dos fins de semana. Os guardanapos. Tudo em ordem.
Quando eles se sentaram para jantar, reparou tarde demais que o garfo estava no lugar da faca e esta dentro do copo.
Uma gota de suor por sua têmpora cor-de-chão. Estava acabada.
Correu para a cozinha e fechou a porta atrás de si. O coração bateu depressa e uma rede de artérias pulsava em seu rosto. Um erro grosseiro, em trinta e quatro anos de servidão nunca tinha cometido um erro daquele. Talvez fossem trinta e três ou trinta e cinco. Os cabelos brancos, esparsos em seu negrume habitual, eram testemunhas de sua escravidão da etiqueta.
O que mais teria feito de errado? Escancarou armários, geladeiras, gavetas, passado & coração. Súbito, tudo estava fora do lugar. Exceto a farinha e o juízo, este por ser massa amorfa, aquela por ser pulverizada, vice-versa, coisa e tal.
Estava perdendo a sensatez, tirou o avental. Os grilhões se soltaram repentinos e Adélia caiu contra a parede vazia.
Correu para o quarto, arrumou suas malas. Jogou tudo em um balaio de palha trançada e cogitou colocá-lo sobre as ventas, mas acabou colocando sobre a cômoda. Dona de si e de coisa alguma, Adélia foi passar um batom nesse bico e pentear essa juba crespa. Estava a própria Maria Louca.
Seus ouvidos entoaram a mesma e velha deste reino polaco perdido de onde viria. Príncipe Odilon que se ajeitasse lá pelas bandas de Zanzibar e cuidasse para não cair nas redes de canga. Um raio de liberdade correu sua cara, o grito de Um Átila moribundo afogou-se na garganta.
Correu pelo jardim, claro do sol, mas não achou o portão. Corria sempre na direção oposta daquela desejada e paralela àquela que deveria ir. Alcançou o muro de pedra que era sua gaiola.
Tentou escalar a parede, mas era liso por demais em algumas partes e nas demais o desespero rasgava seus joelhos quando se aproximava do alto.
A angústia crescia. Sua respiração era a de um animal jovem que agonizava. Sentia as vistas escurecendo e se via correndo atrás de preás. Só faltavam-lhe os latidos.
Alcançou os pesados portões de metal. Era pequena demais para pulá-los e grande demais para passar por entre as barras da grade. Olhou are redor como quem procura garrafa pedaço de bolo cogumelo.
Meteu o chaveiro cheio de penduricalhos na fechadura e girou-a. “Jesus te ama”, prometia um deles. Os portões abriram-se apenas o bastante para que passasse, mas não sem rasgar o vestidinho de chitão roxo numa ponta meio enferrujada.
Adélia era: dona-de-si, de liberdade, ex-donadecasacomidaroupa. Só não tinha caminho de volta. Vasculhou o vestido sem bolso e caiu em si.
Adélia tinha liberdade, só não tinha onde enfiá-la.
Quando eles se sentaram para jantar, reparou tarde demais que o garfo estava no lugar da faca e esta dentro do copo.
Uma gota de suor por sua têmpora cor-de-chão. Estava acabada.
Correu para a cozinha e fechou a porta atrás de si. O coração bateu depressa e uma rede de artérias pulsava em seu rosto. Um erro grosseiro, em trinta e quatro anos de servidão nunca tinha cometido um erro daquele. Talvez fossem trinta e três ou trinta e cinco. Os cabelos brancos, esparsos em seu negrume habitual, eram testemunhas de sua escravidão da etiqueta.
O que mais teria feito de errado? Escancarou armários, geladeiras, gavetas, passado & coração. Súbito, tudo estava fora do lugar. Exceto a farinha e o juízo, este por ser massa amorfa, aquela por ser pulverizada, vice-versa, coisa e tal.
Estava perdendo a sensatez, tirou o avental. Os grilhões se soltaram repentinos e Adélia caiu contra a parede vazia.
Correu para o quarto, arrumou suas malas. Jogou tudo em um balaio de palha trançada e cogitou colocá-lo sobre as ventas, mas acabou colocando sobre a cômoda. Dona de si e de coisa alguma, Adélia foi passar um batom nesse bico e pentear essa juba crespa. Estava a própria Maria Louca.
Seus ouvidos entoaram a mesma e velha deste reino polaco perdido de onde viria. Príncipe Odilon que se ajeitasse lá pelas bandas de Zanzibar e cuidasse para não cair nas redes de canga. Um raio de liberdade correu sua cara, o grito de Um Átila moribundo afogou-se na garganta.
Correu pelo jardim, claro do sol, mas não achou o portão. Corria sempre na direção oposta daquela desejada e paralela àquela que deveria ir. Alcançou o muro de pedra que era sua gaiola.
Tentou escalar a parede, mas era liso por demais em algumas partes e nas demais o desespero rasgava seus joelhos quando se aproximava do alto.
A angústia crescia. Sua respiração era a de um animal jovem que agonizava. Sentia as vistas escurecendo e se via correndo atrás de preás. Só faltavam-lhe os latidos.
Alcançou os pesados portões de metal. Era pequena demais para pulá-los e grande demais para passar por entre as barras da grade. Olhou are redor como quem procura garrafa pedaço de bolo cogumelo.
Meteu o chaveiro cheio de penduricalhos na fechadura e girou-a. “Jesus te ama”, prometia um deles. Os portões abriram-se apenas o bastante para que passasse, mas não sem rasgar o vestidinho de chitão roxo numa ponta meio enferrujada.
Adélia era: dona-de-si, de liberdade, ex-donadecasacomidaroupa. Só não tinha caminho de volta. Vasculhou o vestido sem bolso e caiu em si.
Adélia tinha liberdade, só não tinha onde enfiá-la.
As crianças do Centro
Fortalezas de concreto
E crack
Florestas de braços
Pernas
Bocas
E crack
Bolsos Vazios
Rios sem rumo
Noites sem prumo
E crack
Pele escura
Pele clara
E crack
Pedro, tu és pedra
E sobre ti edificarei minha Igreja
E crack
O fogo acende e apaga
E crack
Segura minha mão
E crack
Beija minha boca
E crack
Me abraça forte
E crack
No centro da cidade
Não se dorme
E crack
Crack
crack
crack
Nesses bancos não se deita
Nessa grama não se pisa
Sequer se morre de maleita
Nessa casa mora Elisa
Nessas crianças não se toca
Nesse rio não há doca
Cala a boca e aceita
Sem casa
Sem roupa
Só crack
Televisão?
Tem crack
Olhos vermelhos
Pelo branquinho
Cuidado, Seu Lobo
Eu sou coelhinho
E crack
E crack
Florestas de braços
Pernas
Bocas
E crack
Bolsos Vazios
Rios sem rumo
Noites sem prumo
E crack
Pele escura
Pele clara
E crack
Pedro, tu és pedra
E sobre ti edificarei minha Igreja
E crack
O fogo acende e apaga
E crack
Segura minha mão
E crack
Beija minha boca
E crack
Me abraça forte
E crack
No centro da cidade
Não se dorme
E crack
Crack
crack
crack
Nesses bancos não se deita
Nessa grama não se pisa
Sequer se morre de maleita
Nessa casa mora Elisa
Nessas crianças não se toca
Nesse rio não há doca
Cala a boca e aceita
Sem casa
Sem roupa
Só crack
Televisão?
Tem crack
Olhos vermelhos
Pelo branquinho
Cuidado, Seu Lobo
Eu sou coelhinho
E crack
Meninos do Cais
Menino Só é um desses que trazem um violão nos braços e ideias na cabeça. É desses que, quando cantam, falam na alma da gente, batem fundo mesmo.
Menino Só é um desses que a gente vê deitados na areia da praia pensando nas estrelas ou nas morenas da canela fina que vêm vender cocadinha no calçadão.
Menino Só é um desses que trazem a cantoria e o amor tatuados no peito. Falam bonito, falam com voz de querubim ébrio, tocam como um Miles Davis do cais. É desses que quebram pescoço das mocinhas ricas com sua beleza dura queimada de sol.
Menino Só é um desses que são Marlon Brando do Caribe Sul, o sangue mulato rugindo nas veias. É um desses que, quando fumam, fazem o olho da gente encher.
Menino Só é um desses que jogam capoeira sábado à tardinha no cimo da ladeira. É desses que gingam, que bolem, que sambam.
Menino Só é um desses que cantam Gil ou Caê em porta de bar. Bethânia, Gal, Chico, Tom. É um desses que nunca vão crescer.
Menino Só é um desses que não cavam confusão, que puxam faca só quando o cabra enxerga ferrão de abelha no mel. É um desses que descem a rua com a tez quente de cachaça e dão bom dia pros alibãs.
Menino Só é um desses que fumam o cigarro na esquina no fim de tarde, que se enrabicham com as amapôas na rua.
Menino Só é um desses que morrem de tiro corno (Ai! Maldade) às seis da tarde e jazem no chão enquanto o sangue corre e a gente perde o juízo.
Menino Só é um desses que deixam Mãe Só, deixam saudade amargando nas moreninhas de saia, saudade no coração das senhoras de favela donde se ouve o quebra-mar.
Menino Só é desses que Iemanjá leva para brincar.
Menino Só é um desses que a gente vê deitados na areia da praia pensando nas estrelas ou nas morenas da canela fina que vêm vender cocadinha no calçadão.
Menino Só é um desses que trazem a cantoria e o amor tatuados no peito. Falam bonito, falam com voz de querubim ébrio, tocam como um Miles Davis do cais. É desses que quebram pescoço das mocinhas ricas com sua beleza dura queimada de sol.
Menino Só é um desses que são Marlon Brando do Caribe Sul, o sangue mulato rugindo nas veias. É um desses que, quando fumam, fazem o olho da gente encher.
Menino Só é um desses que jogam capoeira sábado à tardinha no cimo da ladeira. É desses que gingam, que bolem, que sambam.
Menino Só é um desses que cantam Gil ou Caê em porta de bar. Bethânia, Gal, Chico, Tom. É um desses que nunca vão crescer.
Menino Só é um desses que não cavam confusão, que puxam faca só quando o cabra enxerga ferrão de abelha no mel. É um desses que descem a rua com a tez quente de cachaça e dão bom dia pros alibãs.
Menino Só é um desses que fumam o cigarro na esquina no fim de tarde, que se enrabicham com as amapôas na rua.
Menino Só é um desses que morrem de tiro corno (Ai! Maldade) às seis da tarde e jazem no chão enquanto o sangue corre e a gente perde o juízo.
Menino Só é um desses que deixam Mãe Só, deixam saudade amargando nas moreninhas de saia, saudade no coração das senhoras de favela donde se ouve o quebra-mar.
Menino Só é desses que Iemanjá leva para brincar.
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