terça-feira, 26 de julho de 2011

A concha e o mar

– O que mais me incomoda em você é esse seu jeito de amar. Você vive dentro desses livros de merda que lê, vive dentro das fábulas que sua cabeça inventa. Isso não é saudável.

Luísa rolou na cama. A conversa dele era a mesma todas as vezes que se encontravam. Faltava-lhe conhecimento, leitura ou mesmo vivência. Ele estava se barbeando com a lâmina dela e ainda dizia uns absurdos desses.

Era essa mania chata dele de saber muito pouco e querer resumir o mundo que fodia a relação. Ele saiu do banheiro com a cara suja de espuma de barbear e olhou-a.

– Então você diz que eu sei muito pouco. Deve ser assim mesmo, mas eu não fico reclamando.

Pois não fica. Diz que tudo é uma merda, vive maldizendo a vida. E ela que ficasse ouvindo, por que a relação subsistia disso: Da vontade dela de escutar as bobagens que ele dizia.

– Luísa, você se ama demais. Você só sabe gastar o que tem e o que não tem. Gosta de ter todo mundo fazendo suas vontades, gosta de controlar, gosta que façam todas as suas vontades. Leva qualquer um pra cama, fode sem se deixar levar. – Ele abriu a torneira e enxaguou o rosto – E se perde por não saber o que quer.

Luísa enfiou a mão no meio das pernas e puxou a calcinha pelo meio, dormir nua era uma das poucas coisas que ainda podia fazer. Ele escovou os dentes com a escova dela e cuspiu na pia. Ficou se olhando no espelho, esperando os cortes pararem de sangrar. Tudo o que sabia fazer era coçar o saco e encher o dela por miudezas.

– Se eu te encho tanto o saco, por que você ainda vai atrás de mim? Eu sempre te dou a chance de se esquecer de mim, mas você sempre me liga. Você fica tentando me comprar com seus presentes, com seus cigarros, com seus jogos.

Ela jogou a calcinha embaixo da cama e respirou fundo. Ele se acha um daqueles que têm pássaros azuis, tem lá suas loucuras e seu charme. Mas não passa disso.

– Por que você me liga?

Porque ele não a deixa de vez. Estava agora parado na frente de um dos espelhos olhando o próprio pau. Ele sabia mesmo de pouca coisa, passava a impressão de que sabia de muito e fingia querer passar a de que não ligava.

– Você me odeia tanto assim? – Ele coçou o rabo e se virou para ela – Você ainda tem daquele uísque?

Ele sabia que sim, que só ele bebia daquele uísque. E bebia direto da garrafa. Se ele odiava tanto assim os pequenos presentes que ela lhe fazia, porque voltava?

– Porque você sempre me liga e vai atrás de mim. Você não me dá escolhas.

Filho da puta.

– Essa é a verdade. Você não me dá escolhas, nem nunca me deu. Você sempre fica fazendo essa sua cara de abandono, você não sabe pedir: tem sempre que suplicar. Isso é um saco, Luísa.

Um saco era ter que correr atrás dele, ficar fazendo pequenas e grandes gentilezas. Fingir que nada acontecia, nunca. Ficar se rendendo as vontades dele. Quando ele queria, ele vinha. Quando ela chamava, ele não se dava a isso.

– Não é assim. Você sabe bem.

Ele jogou-lhe a garrafa de uísque e ela deu um longo trago. Ele colocou as duas mãos na cabeça e ficou olhando para um ponto na parede.

– Por que você ainda me deixa entrar?

Ela não respondeu, não tinha coragem de dizer e tinha medo do que aquilo poderia trazer. Ele continuava se esfregando em outras na rua, continuava enchendo a cara e se drogando. Ele lhe causava fascínio, era essa a verdade. Turrão, pseudo-intelectual e livre em seu próprio modo de ser.

– No que você esta pensando? – Ele se enfiou por baixo das cobertas e colocou a mão na cintura dela. Seus olhos brilhavam de chapado. – Não me diga que você está pensando nele de novo.

Então ia ser sempre assim? Ele vinha, ela cozinhava para ele, enchia-o de elogios, cuidava dele como de um ser amado. Ele bebia de seu uísque, insultava-a, roncava em sua cama. E depois ia embora, deixava-a sozinha, não ligava, não queria saber como ela estava.

– Luísa, por que você me cobra tanto? – Ele abraçou-a por baixo dos lençóis – Eu quero liberdade e quero levar você comigo.

Ele vinha, deitava-se com ela. Mas não era dela. Ela nunca o tinha, ele não se decidia. Ele a abraçava, mas ia comer outras.

– Por que você fica calada?

O telefone tocou. Ela atendeu alô, quem fala e ele se ajeitou de bruços na cama. A bunda dele era espetacular sob os lençóis. Não, não. Não vou sair hoje.

– Quem é?

Era um antigo caso dela. Ele se irritou e bateu o fone no gancho.

– Você tem que parar de dar ideia para esses idiotas.

Ela levantou uma sobrancelha e deu mais um trago. Ele tampouco se desligou do passado, pelo contrário, passou a mexer com coisas ainda piores.

– Claro que não, Luísa. Você tá louca?

Louca, louca. Era louca por ele, isso sim. Tantos anos e ele ainda não a tocara.

– Você precisa relaxar, Luísa. – Ele pegou o casaco no chão e tirou uma trouxinha do bolso. Ela ficou olhando enquanto ele ajeitava duas carreiras. Depois dividiu uma delas em duas menores, como ela gostava. – Você é intensa demais, com tudo.

Ela enrolou uma nota de um dólar enquanto ele terminava de ajeitar aquilo. Luísa mandou uma em cada narina.

– Tá vendo, até tremendo você está. – Ele pegou a nota dela e também cheirou a sua. – Caralho!

Ela deitou-se na cama e ele abraçou suas costas. Ela pegou o telefone e discou, mas ninguém atendeu.

domingo, 17 de julho de 2011

Temporal

E olhar para aqueles barcos me trazia memórias do tempo bom.

As ondas agitam aqueles cascos, os barcos assustam aquelas gaivotas, os pássaros devoram aqueles peixes, o pescado alimenta aqueles homens. Homens rudes de mulheres saudosas.

O vento sacudiu as palmeiras e invadiu o continente com seu cheiro de sal. Teus cabelos muito negros e tua pele muito lisa, o lençol fino sobre teu corpo nu. O sol nascia atrás dos domínios de Netuno e vinha abraçar as nuvens. Senti inveja do travesseiro por poder amparar tua cabeça.

Seus cabelos com cheiro de canela, o gosto de maresia da tua pele. Abracei tua cintura e apoiei minha cabeça em teu peito nu. Tua respiração de um animal jovem, toda a plenitude de uma amazona que espreita sua caça.

Meus pés nus tocam a areia fria de tanta madrugada. Um galo canta ao longe, insólito. Os gritos ancestrais estouram por toda a praia. Aqueles homens rústicos trazem sua comida e seu sustento, não há muita diferença óbvia entre eles. Suas mãos enérgicas e cansadas recolhem as redes. Gritos de felicidade são ouvidos entre os mais jovens, hoje a pesca foi boa.

Os mais jovens ali aparentam ter 25 anos, apesar de sua baixa estatura, mas conversando com um deles, descubro que têm apenas 13. Seus olhos negros me fitavam no escuro da cabana, a toalha de desenrolara de teu corpo e ficara no chão.

Os peixes se debatem como se aplaudissem aqueles homens. Você acende um cigarro e me fita mais uma vez.

Seu corpo forte ficava ainda mais bonito contra a luz da lua. Seus longos cabelos desenrolam-se, revoltosos, abaixo de seus ombros. “Parece o mar numa tempestade de noite.” Você sorriu. Alguns fios grudaram ao seu rosto molhado. Você sentou no meu colo e colocou seus braços ao redor do meu pescoço.

O cigarro aceso queima em silêncio, brilhando mais forte quando o vento chega. Os homens trazem as redes para a areia e começam a matar sua plateia ali mesmo. Com pequenos canivetes de cabo gasto, rasgam a barriga dos peixes, que tentam se soltar num último esforço pela vida, e retiram suas tripas com os dedos grossos. O cheiro de sangue toma conta da praia. Os homens, sujos de sangue, a areia, suja de sangue, os peixes que se debatiam, sujos de sangue. Os pássaros corriam de um lado para o outro, desorientados com aquele festival. Comiam coração estômago intestino. Bicavam fígado baço peixe.

O suor confundia-se com a água de mar em suas testas. Você me beijou com seu hálito de café. Corpos negros abaixados executavam seu trabalho, entoavam suas canções de tempos antigos. Seu corpo moreno confundia-se com o meu.

Coloquei minha mão sobre teu seio e apertei com cuidado. Você colocou minha outra mão na sua cintura. Suas pernas abriram-se sobre minhas coxas, como uma amazona em seu cavalo. A luz da lua entrou pela janela e fixou-se no chão a nossa frente. A cadeira de madeira rangeu sob nosso peso. Você ajeitou sua virilha e a levou de encontro à minha. Estava molhada. Você estremeceu quando o contato, tão antigo quanto se podia ser, aconteceu. Você me beijou enquanto gemeu. Aquele movimento extraiu minha força aos poucos, você se moveu mais rápido e mais rápido e mais rápido. Você pareceu uma leoa jovem. Você estremeceu como se tivesse levado um choque e suas unhas longas entraram nas minhas costas. Aquilo fez algo explodir em mim e encher tuas pernas lisas.

Os marinheiros agora limpavam suas facas impiedosas e prendiam aquela multidão de cadáveres em pequenos paus com linhas, divididos em grupos de dez. As gaivotas regozijavam-se com os poucos restos na areia. Os peixes pareciam encarar a eternidade com seu grandes olhos redondos. As mulheres vinham à praia, olhavam ansiosas para a arrebentação das ondas, como se fizessem uma prece surda. Iemanjá perdoara seus maridos dessa vez.

Iemanjá ia-se embora quando olhou para trás pela última vez. Agora eu sabia: você tinha os cabelos da Rainha do Mar. Iemanjá virou-se em minha direção e olhou-me. Você me encarava no escuro.

Corri o quanto pude. A água já chegava à cintura. O sol me beijava o rosto. Os homens me olhavam, confusos. As mulheres me olhavam, compreensivas. As crianças assustavam as gaivotas.

Enquanto eu corria para os braços de Iemanjá, eu olhei para trás e vi você.

Os Gritos

Ouço sua voz no corredor.

O cheiro do seu cigarro me desperta.

O passo pesado de teus sapatos.

O seu lado da cama arrumado.

Minha face quente

O quarto que girava girava

girafa

garrafa

A bebida calma

A chama fraca

A mulher amada

A rosa que chora

A mosca gira ao redor da maçã

Você quando se foi

Dois peixes num lago vago

A água que se agita.

Sinto suas mãos em mim

Seus lábios quando tocam os meus

Seus olhos quando me fitam

Seu coração quando bate no meu peito

Mas desde que você se foi

Para nunca mais voltar

Os anjos gritavam por ti

Minha vida

Meu amor

Minha dor

Divórcio na década de 50: Segundo a mulher;

Quando você vem

Meu corpo estremece

A alma emudece

A face se aquece

Assim você me tem

Quando você vem

Sei que traz as musas

Sei que traz as blusas

Sei que me abusa

Sei que me acusa

Bem como você faz bem

Quando você vem

Desde cedo,

Estou na janela.

Com medo,

Te espero, tão bela.

Meu apego,

Manifesto na capela.

Você sabe que me tem.

Quando você vem

Seu toque me acua

O seu cheiro me entorpece

A carne fria, rocha nua

O mundo estremece

O Sol, o brilho da Lua

O arrepio quando chama “Meu bem”.

Quando você vem

O dia se agita

O coração pula

A alma grita

O forno aqueço

O cachorro adula

Os erros esqueço

O beijo procuro

O grito, a palavra chula

O mau-humor aturo.

Quando você vem?

Quando você não veio

A casa sofreu

O cachorro esperou

O filho anunciou

Eu chorei

Eu cantei

Eu tentei

Eu sentei

O bolo solou

O jardim secou

A rosa morreu.

Por que você não veio?

Quando você se foi

O cachorro fugiu

Nosso filho perdi

Não mais cantei

Depois que você se foi.

Agora que você se foi

Ninguém conserta o telhado

Ninguém pega a panela do alto

Ninguém fuma na varanda

Ninguém me beija depois do café

Ninguém teme a guerra

Ninguém deixa bilhetes na mesa

Ninguem me inspira cuidados

Esta casa vazia

Esta vida vazia

A morte sozinha

A bebida sozinha.

Sei que você não me tem.

domingo, 3 de julho de 2011

Paranoia

Paranoia é o medo da noite

São os dias que passam

Marcas de um tempo que não volta

Voltas do relógio

Não se volta da morte



Paranoia é o fim

É a espera pelo fim

É o estar sozinho

É o frio que entra pelos ossos



Medo dos olhos que fitam o escuro

A cadeira que balança

O mundo que treme

É o pavor do toque



A lâmina brilhante de um ceifador

As mãos que se juntam

O coração que não bate

A chama que se acende na ponta

A ponta que se apaga no peito



Paranoia é o filho que não chega

Paranoia é o novelo de Ariadne

Os chifres de Medusas caladas

O silêncio que antecede o grito



Paranoia é a lágrima que não escorreu.