– O que mais me incomoda em você é esse seu jeito de amar. Você vive dentro desses livros de merda que lê, vive dentro das fábulas que sua cabeça inventa. Isso não é saudável.
Luísa rolou na cama. A conversa dele era a mesma todas as vezes que se encontravam. Faltava-lhe conhecimento, leitura ou mesmo vivência. Ele estava se barbeando com a lâmina dela e ainda dizia uns absurdos desses.
Era essa mania chata dele de saber muito pouco e querer resumir o mundo que fodia a relação. Ele saiu do banheiro com a cara suja de espuma de barbear e olhou-a.
– Então você diz que eu sei muito pouco. Deve ser assim mesmo, mas eu não fico reclamando.
Pois não fica. Diz que tudo é uma merda, vive maldizendo a vida. E ela que ficasse ouvindo, por que a relação subsistia disso: Da vontade dela de escutar as bobagens que ele dizia.
– Luísa, você se ama demais. Você só sabe gastar o que tem e o que não tem. Gosta de ter todo mundo fazendo suas vontades, gosta de controlar, gosta que façam todas as suas vontades. Leva qualquer um pra cama, fode sem se deixar levar. – Ele abriu a torneira e enxaguou o rosto – E se perde por não saber o que quer.
Luísa enfiou a mão no meio das pernas e puxou a calcinha pelo meio, dormir nua era uma das poucas coisas que ainda podia fazer. Ele escovou os dentes com a escova dela e cuspiu na pia. Ficou se olhando no espelho, esperando os cortes pararem de sangrar. Tudo o que sabia fazer era coçar o saco e encher o dela por miudezas.
– Se eu te encho tanto o saco, por que você ainda vai atrás de mim? Eu sempre te dou a chance de se esquecer de mim, mas você sempre me liga. Você fica tentando me comprar com seus presentes, com seus cigarros, com seus jogos.
Ela jogou a calcinha embaixo da cama e respirou fundo. Ele se acha um daqueles que têm pássaros azuis, tem lá suas loucuras e seu charme. Mas não passa disso.
– Por que você me liga?
Porque ele não a deixa de vez. Estava agora parado na frente de um dos espelhos olhando o próprio pau. Ele sabia mesmo de pouca coisa, passava a impressão de que sabia de muito e fingia querer passar a de que não ligava.
– Você me odeia tanto assim? – Ele coçou o rabo e se virou para ela – Você ainda tem daquele uísque?
Ele sabia que sim, que só ele bebia daquele uísque. E bebia direto da garrafa. Se ele odiava tanto assim os pequenos presentes que ela lhe fazia, porque voltava?
– Porque você sempre me liga e vai atrás de mim. Você não me dá escolhas.
Filho da puta.
– Essa é a verdade. Você não me dá escolhas, nem nunca me deu. Você sempre fica fazendo essa sua cara de abandono, você não sabe pedir: tem sempre que suplicar. Isso é um saco, Luísa.
Um saco era ter que correr atrás dele, ficar fazendo pequenas e grandes gentilezas. Fingir que nada acontecia, nunca. Ficar se rendendo as vontades dele. Quando ele queria, ele vinha. Quando ela chamava, ele não se dava a isso.
– Não é assim. Você sabe bem.
Ele jogou-lhe a garrafa de uísque e ela deu um longo trago. Ele colocou as duas mãos na cabeça e ficou olhando para um ponto na parede.
– Por que você ainda me deixa entrar?
Ela não respondeu, não tinha coragem de dizer e tinha medo do que aquilo poderia trazer. Ele continuava se esfregando em outras na rua, continuava enchendo a cara e se drogando. Ele lhe causava fascínio, era essa a verdade. Turrão, pseudo-intelectual e livre em seu próprio modo de ser.
– No que você esta pensando? – Ele se enfiou por baixo das cobertas e colocou a mão na cintura dela. Seus olhos brilhavam de chapado. – Não me diga que você está pensando nele de novo.
Então ia ser sempre assim? Ele vinha, ela cozinhava para ele, enchia-o de elogios, cuidava dele como de um ser amado. Ele bebia de seu uísque, insultava-a, roncava em sua cama. E depois ia embora, deixava-a sozinha, não ligava, não queria saber como ela estava.
– Luísa, por que você me cobra tanto? – Ele abraçou-a por baixo dos lençóis – Eu quero liberdade e quero levar você comigo.
Ele vinha, deitava-se com ela. Mas não era dela. Ela nunca o tinha, ele não se decidia. Ele a abraçava, mas ia comer outras.
– Por que você fica calada?
O telefone tocou. Ela atendeu alô, quem fala e ele se ajeitou de bruços na cama. A bunda dele era espetacular sob os lençóis. Não, não. Não vou sair hoje.
– Quem é?
Era um antigo caso dela. Ele se irritou e bateu o fone no gancho.
– Você tem que parar de dar ideia para esses idiotas.
Ela levantou uma sobrancelha e deu mais um trago. Ele tampouco se desligou do passado, pelo contrário, passou a mexer com coisas ainda piores.
– Claro que não, Luísa. Você tá louca?
Louca, louca. Era louca por ele, isso sim. Tantos anos e ele ainda não a tocara.
– Você precisa relaxar, Luísa. – Ele pegou o casaco no chão e tirou uma trouxinha do bolso. Ela ficou olhando enquanto ele ajeitava duas carreiras. Depois dividiu uma delas em duas menores, como ela gostava. – Você é intensa demais, com tudo.
Ela enrolou uma nota de um dólar enquanto ele terminava de ajeitar aquilo. Luísa mandou uma em cada narina.
– Tá vendo, até tremendo você está. – Ele pegou a nota dela e também cheirou a sua. – Caralho!
Ela deitou-se na cama e ele abraçou suas costas. Ela pegou o telefone e discou, mas ninguém atendeu.
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