quarta-feira, 17 de agosto de 2011

Ícaro

O consultório era uma sala pequena com as paredes verdes. Eu estava deitado de barriga para cima e, não que fosse desconfortável, mas a cor é que me incomodava. Era um divã roxo, tinha três pernas e apoio para a cabeça. Os pássaros cantavam uma

- Você sabe por que está aqui?

- Imagino que não.

A doutora tirou os óculos e deixou-os sobre a prancheta carcomida pelo uso. Eu não fui uma criança fácil de lidar. Uma vez eu estava sentado na praia

- Conte-me sobre seus planos para o futuro.

- Imagino que eu vá ser um desses velhos rabugentos que

- Claro que imagina.

- Perdão?

- Sobre o futuro só podemos imaginar.

No meu caso não era bem verdade. Na época, eu gostava de imaginar que o futuro dependia só de mim e do que eu quisesse

- Prossiga sobre o futuro.

- Se eu sobreviver a mim mesmo, talvez eu seja um velho rabugento desses que criam galinhas cachorros gatos peixes.

- Conte-me sobre seu passado recente.

- Recente é bem relativo.

- Você não é tão velho.

- Eu peguei um ônibus na Praça Cívica e cheguei há quinze minutos.

Ela me encarava e eu encarava a pomba na janela.

- Bem,

- Imagino que eu tenha ficado bêbado e lido Dostoievski.

- E o que mais?

Eu andava tendo umas vontades de pintar, esculpir e o caralho. Nada que não fosse passar.

- Posso acender um cigarro?

A doutora me alcançou o cinzeiro, se levantou e abriu a janela.

- Olha, talvez eu tenha feito outras coisas. Imagino que a polícia não concorde com a maioria delas e que vocês queiram me julgar às vezes.

- Não estou aqui para te

- Ouça, eu não sei o que tinha naquela pasta que eu trouxe, mas talvez eles tenham se precipitado.

- E você talvez tenha se precipitado duas ou três vezes.

A vida que levava então era bem desregrada. Pó, bulimia e poesia. Não achava que fosse grande coisa, mas algumas pessoas tinham opiniões diferentes. Um curió pousou sobre o parapeito e ficou olhando lá para fora. Não tinha notado que estávamos ali.

Pigarreei e prossegui.

- Vocês acham que foi algum caso de amor?

- Eu não acho nada por isso estou te perguntando.

- Isso é uma consulta ou uma entrevista?

O curió cagou e se mandou. Ela não me respondeu.

- Você imagina que essa sua conduta autodestrutiva se relaciona de algum modo aos livros que lê?

- Doutora, o que você sabe dos livros que leio?

- Você não me respondeu.

Apaguei o cigarro e me sentei.

- Eu imagino que não.

A estante dela estava cheia de livros em inglês e alemão. E ela tinha umas pernas muito bonitas.

- Você se considera sexualmente ativo?

- Ativo ou passivo, tanto faz.

- O que você quer dizer?

Havia alguns meses que me diagnosticaram com um princípio de câncer de pele. Começou com uma pequena verruga avermelhada que não parava de crescer. No começo eu a mordia para fora, mas um dia me fizeram consultar uma dermatologista.

- Quando você começou a usar drogas?

- Drogas é um conceito relativo também.

Ela anotou alguma coisa na prancheta e me encarou de novo.

- Dipirona sódica aos 12.

- Você se considera viciado?

Acendi mais um cigarro e a encarei de volta. Ela anotou mais alguma coisa.

- Você sempre quis ser psicóloga?

- Aos 3 você aprendeu a ler sozinho. Aos 5 foi levado a um psicólogo pela primeira vez. Aos 6 começou a tomar inibidores cerebrais e os tomou até os 8. Com 14 você foi internado por subnutrição acarretada por bulimia. Desde então você passou por três comas alcoólicos, foi fichado como usuário de maconha e teve duas pneumonias depois de começar a fumar.

Não achava que tinha uma conduta autodestrutiva. Eles fizeram isso por mim.

- Você acredita em Deus?

- Não sei se acredito nele e se ele acredita em mim.

Era verdade, não que eu não acreditasse, mas tinha minhas dúvidas.

- Olha, eu não sei onde vamos chegar com isso, mas eu continuo sem saber por que estou aqui.

terça-feira, 26 de julho de 2011

A concha e o mar

– O que mais me incomoda em você é esse seu jeito de amar. Você vive dentro desses livros de merda que lê, vive dentro das fábulas que sua cabeça inventa. Isso não é saudável.

Luísa rolou na cama. A conversa dele era a mesma todas as vezes que se encontravam. Faltava-lhe conhecimento, leitura ou mesmo vivência. Ele estava se barbeando com a lâmina dela e ainda dizia uns absurdos desses.

Era essa mania chata dele de saber muito pouco e querer resumir o mundo que fodia a relação. Ele saiu do banheiro com a cara suja de espuma de barbear e olhou-a.

– Então você diz que eu sei muito pouco. Deve ser assim mesmo, mas eu não fico reclamando.

Pois não fica. Diz que tudo é uma merda, vive maldizendo a vida. E ela que ficasse ouvindo, por que a relação subsistia disso: Da vontade dela de escutar as bobagens que ele dizia.

– Luísa, você se ama demais. Você só sabe gastar o que tem e o que não tem. Gosta de ter todo mundo fazendo suas vontades, gosta de controlar, gosta que façam todas as suas vontades. Leva qualquer um pra cama, fode sem se deixar levar. – Ele abriu a torneira e enxaguou o rosto – E se perde por não saber o que quer.

Luísa enfiou a mão no meio das pernas e puxou a calcinha pelo meio, dormir nua era uma das poucas coisas que ainda podia fazer. Ele escovou os dentes com a escova dela e cuspiu na pia. Ficou se olhando no espelho, esperando os cortes pararem de sangrar. Tudo o que sabia fazer era coçar o saco e encher o dela por miudezas.

– Se eu te encho tanto o saco, por que você ainda vai atrás de mim? Eu sempre te dou a chance de se esquecer de mim, mas você sempre me liga. Você fica tentando me comprar com seus presentes, com seus cigarros, com seus jogos.

Ela jogou a calcinha embaixo da cama e respirou fundo. Ele se acha um daqueles que têm pássaros azuis, tem lá suas loucuras e seu charme. Mas não passa disso.

– Por que você me liga?

Porque ele não a deixa de vez. Estava agora parado na frente de um dos espelhos olhando o próprio pau. Ele sabia mesmo de pouca coisa, passava a impressão de que sabia de muito e fingia querer passar a de que não ligava.

– Você me odeia tanto assim? – Ele coçou o rabo e se virou para ela – Você ainda tem daquele uísque?

Ele sabia que sim, que só ele bebia daquele uísque. E bebia direto da garrafa. Se ele odiava tanto assim os pequenos presentes que ela lhe fazia, porque voltava?

– Porque você sempre me liga e vai atrás de mim. Você não me dá escolhas.

Filho da puta.

– Essa é a verdade. Você não me dá escolhas, nem nunca me deu. Você sempre fica fazendo essa sua cara de abandono, você não sabe pedir: tem sempre que suplicar. Isso é um saco, Luísa.

Um saco era ter que correr atrás dele, ficar fazendo pequenas e grandes gentilezas. Fingir que nada acontecia, nunca. Ficar se rendendo as vontades dele. Quando ele queria, ele vinha. Quando ela chamava, ele não se dava a isso.

– Não é assim. Você sabe bem.

Ele jogou-lhe a garrafa de uísque e ela deu um longo trago. Ele colocou as duas mãos na cabeça e ficou olhando para um ponto na parede.

– Por que você ainda me deixa entrar?

Ela não respondeu, não tinha coragem de dizer e tinha medo do que aquilo poderia trazer. Ele continuava se esfregando em outras na rua, continuava enchendo a cara e se drogando. Ele lhe causava fascínio, era essa a verdade. Turrão, pseudo-intelectual e livre em seu próprio modo de ser.

– No que você esta pensando? – Ele se enfiou por baixo das cobertas e colocou a mão na cintura dela. Seus olhos brilhavam de chapado. – Não me diga que você está pensando nele de novo.

Então ia ser sempre assim? Ele vinha, ela cozinhava para ele, enchia-o de elogios, cuidava dele como de um ser amado. Ele bebia de seu uísque, insultava-a, roncava em sua cama. E depois ia embora, deixava-a sozinha, não ligava, não queria saber como ela estava.

– Luísa, por que você me cobra tanto? – Ele abraçou-a por baixo dos lençóis – Eu quero liberdade e quero levar você comigo.

Ele vinha, deitava-se com ela. Mas não era dela. Ela nunca o tinha, ele não se decidia. Ele a abraçava, mas ia comer outras.

– Por que você fica calada?

O telefone tocou. Ela atendeu alô, quem fala e ele se ajeitou de bruços na cama. A bunda dele era espetacular sob os lençóis. Não, não. Não vou sair hoje.

– Quem é?

Era um antigo caso dela. Ele se irritou e bateu o fone no gancho.

– Você tem que parar de dar ideia para esses idiotas.

Ela levantou uma sobrancelha e deu mais um trago. Ele tampouco se desligou do passado, pelo contrário, passou a mexer com coisas ainda piores.

– Claro que não, Luísa. Você tá louca?

Louca, louca. Era louca por ele, isso sim. Tantos anos e ele ainda não a tocara.

– Você precisa relaxar, Luísa. – Ele pegou o casaco no chão e tirou uma trouxinha do bolso. Ela ficou olhando enquanto ele ajeitava duas carreiras. Depois dividiu uma delas em duas menores, como ela gostava. – Você é intensa demais, com tudo.

Ela enrolou uma nota de um dólar enquanto ele terminava de ajeitar aquilo. Luísa mandou uma em cada narina.

– Tá vendo, até tremendo você está. – Ele pegou a nota dela e também cheirou a sua. – Caralho!

Ela deitou-se na cama e ele abraçou suas costas. Ela pegou o telefone e discou, mas ninguém atendeu.

domingo, 17 de julho de 2011

Temporal

E olhar para aqueles barcos me trazia memórias do tempo bom.

As ondas agitam aqueles cascos, os barcos assustam aquelas gaivotas, os pássaros devoram aqueles peixes, o pescado alimenta aqueles homens. Homens rudes de mulheres saudosas.

O vento sacudiu as palmeiras e invadiu o continente com seu cheiro de sal. Teus cabelos muito negros e tua pele muito lisa, o lençol fino sobre teu corpo nu. O sol nascia atrás dos domínios de Netuno e vinha abraçar as nuvens. Senti inveja do travesseiro por poder amparar tua cabeça.

Seus cabelos com cheiro de canela, o gosto de maresia da tua pele. Abracei tua cintura e apoiei minha cabeça em teu peito nu. Tua respiração de um animal jovem, toda a plenitude de uma amazona que espreita sua caça.

Meus pés nus tocam a areia fria de tanta madrugada. Um galo canta ao longe, insólito. Os gritos ancestrais estouram por toda a praia. Aqueles homens rústicos trazem sua comida e seu sustento, não há muita diferença óbvia entre eles. Suas mãos enérgicas e cansadas recolhem as redes. Gritos de felicidade são ouvidos entre os mais jovens, hoje a pesca foi boa.

Os mais jovens ali aparentam ter 25 anos, apesar de sua baixa estatura, mas conversando com um deles, descubro que têm apenas 13. Seus olhos negros me fitavam no escuro da cabana, a toalha de desenrolara de teu corpo e ficara no chão.

Os peixes se debatem como se aplaudissem aqueles homens. Você acende um cigarro e me fita mais uma vez.

Seu corpo forte ficava ainda mais bonito contra a luz da lua. Seus longos cabelos desenrolam-se, revoltosos, abaixo de seus ombros. “Parece o mar numa tempestade de noite.” Você sorriu. Alguns fios grudaram ao seu rosto molhado. Você sentou no meu colo e colocou seus braços ao redor do meu pescoço.

O cigarro aceso queima em silêncio, brilhando mais forte quando o vento chega. Os homens trazem as redes para a areia e começam a matar sua plateia ali mesmo. Com pequenos canivetes de cabo gasto, rasgam a barriga dos peixes, que tentam se soltar num último esforço pela vida, e retiram suas tripas com os dedos grossos. O cheiro de sangue toma conta da praia. Os homens, sujos de sangue, a areia, suja de sangue, os peixes que se debatiam, sujos de sangue. Os pássaros corriam de um lado para o outro, desorientados com aquele festival. Comiam coração estômago intestino. Bicavam fígado baço peixe.

O suor confundia-se com a água de mar em suas testas. Você me beijou com seu hálito de café. Corpos negros abaixados executavam seu trabalho, entoavam suas canções de tempos antigos. Seu corpo moreno confundia-se com o meu.

Coloquei minha mão sobre teu seio e apertei com cuidado. Você colocou minha outra mão na sua cintura. Suas pernas abriram-se sobre minhas coxas, como uma amazona em seu cavalo. A luz da lua entrou pela janela e fixou-se no chão a nossa frente. A cadeira de madeira rangeu sob nosso peso. Você ajeitou sua virilha e a levou de encontro à minha. Estava molhada. Você estremeceu quando o contato, tão antigo quanto se podia ser, aconteceu. Você me beijou enquanto gemeu. Aquele movimento extraiu minha força aos poucos, você se moveu mais rápido e mais rápido e mais rápido. Você pareceu uma leoa jovem. Você estremeceu como se tivesse levado um choque e suas unhas longas entraram nas minhas costas. Aquilo fez algo explodir em mim e encher tuas pernas lisas.

Os marinheiros agora limpavam suas facas impiedosas e prendiam aquela multidão de cadáveres em pequenos paus com linhas, divididos em grupos de dez. As gaivotas regozijavam-se com os poucos restos na areia. Os peixes pareciam encarar a eternidade com seu grandes olhos redondos. As mulheres vinham à praia, olhavam ansiosas para a arrebentação das ondas, como se fizessem uma prece surda. Iemanjá perdoara seus maridos dessa vez.

Iemanjá ia-se embora quando olhou para trás pela última vez. Agora eu sabia: você tinha os cabelos da Rainha do Mar. Iemanjá virou-se em minha direção e olhou-me. Você me encarava no escuro.

Corri o quanto pude. A água já chegava à cintura. O sol me beijava o rosto. Os homens me olhavam, confusos. As mulheres me olhavam, compreensivas. As crianças assustavam as gaivotas.

Enquanto eu corria para os braços de Iemanjá, eu olhei para trás e vi você.

Os Gritos

Ouço sua voz no corredor.

O cheiro do seu cigarro me desperta.

O passo pesado de teus sapatos.

O seu lado da cama arrumado.

Minha face quente

O quarto que girava girava

girafa

garrafa

A bebida calma

A chama fraca

A mulher amada

A rosa que chora

A mosca gira ao redor da maçã

Você quando se foi

Dois peixes num lago vago

A água que se agita.

Sinto suas mãos em mim

Seus lábios quando tocam os meus

Seus olhos quando me fitam

Seu coração quando bate no meu peito

Mas desde que você se foi

Para nunca mais voltar

Os anjos gritavam por ti

Minha vida

Meu amor

Minha dor

Divórcio na década de 50: Segundo a mulher;

Quando você vem

Meu corpo estremece

A alma emudece

A face se aquece

Assim você me tem

Quando você vem

Sei que traz as musas

Sei que traz as blusas

Sei que me abusa

Sei que me acusa

Bem como você faz bem

Quando você vem

Desde cedo,

Estou na janela.

Com medo,

Te espero, tão bela.

Meu apego,

Manifesto na capela.

Você sabe que me tem.

Quando você vem

Seu toque me acua

O seu cheiro me entorpece

A carne fria, rocha nua

O mundo estremece

O Sol, o brilho da Lua

O arrepio quando chama “Meu bem”.

Quando você vem

O dia se agita

O coração pula

A alma grita

O forno aqueço

O cachorro adula

Os erros esqueço

O beijo procuro

O grito, a palavra chula

O mau-humor aturo.

Quando você vem?

Quando você não veio

A casa sofreu

O cachorro esperou

O filho anunciou

Eu chorei

Eu cantei

Eu tentei

Eu sentei

O bolo solou

O jardim secou

A rosa morreu.

Por que você não veio?

Quando você se foi

O cachorro fugiu

Nosso filho perdi

Não mais cantei

Depois que você se foi.

Agora que você se foi

Ninguém conserta o telhado

Ninguém pega a panela do alto

Ninguém fuma na varanda

Ninguém me beija depois do café

Ninguém teme a guerra

Ninguém deixa bilhetes na mesa

Ninguem me inspira cuidados

Esta casa vazia

Esta vida vazia

A morte sozinha

A bebida sozinha.

Sei que você não me tem.

domingo, 3 de julho de 2011

Paranoia

Paranoia é o medo da noite

São os dias que passam

Marcas de um tempo que não volta

Voltas do relógio

Não se volta da morte



Paranoia é o fim

É a espera pelo fim

É o estar sozinho

É o frio que entra pelos ossos



Medo dos olhos que fitam o escuro

A cadeira que balança

O mundo que treme

É o pavor do toque



A lâmina brilhante de um ceifador

As mãos que se juntam

O coração que não bate

A chama que se acende na ponta

A ponta que se apaga no peito



Paranoia é o filho que não chega

Paranoia é o novelo de Ariadne

Os chifres de Medusas caladas

O silêncio que antecede o grito



Paranoia é a lágrima que não escorreu.

quarta-feira, 29 de junho de 2011

Solidão, Sol sustenido

Quando você me faz falta

Peço que a Lua me traga

Nas asas de fraco verso

Folha, semente e baga


E se não as tenho

Quero que me faça Ursa

Sem calor, minha culpa

E estar próximo da Lua


Ursa feito, desejo

Girar no desalento

Mar que não toco

Desejo de momento


E sem o abraço do mar

Ser de luz não basta

Cinosura, peço que traga

A piedade de Jocasta


De luz feito, não me falte

Venha logo, não se atrase

A espera me consome

Luz na noite, não se afaste

A súplica

Deixa, deixa eu ser sua

Em cada centímetro de pele escura

Meu peito aberto e a pele nua

Ser sua mulher, fazer loucura


Deixa, deixa eu ser bela

Na noite clara, na rua deserta

Larga a porta aberta

Ter um romance de novela


Deixa, deixa eu ser Juno

Quero parir deuses pro mundo

Esse nosso cochicho noturno

Meu coração moreno sem rumo


Deixa, deixa eu ser vexame

Escrava que te abane

Seja tu meu amante

Esse amor infame


Deixa, deixa eu ser flor

Nesse seu teatro sem ator

Minha raça, nossa dor

Seus palpites, seu calor


Deixa, deixa eu ser menina

E me deixa fora da sua agonia

terça-feira, 28 de junho de 2011

Quasi allegro, alla turca

Era uma vez um pequeno carneiro que vivia com sua mamãe em um grande campo. As colinas eram suaves, a grama sempre verde e havia árvores aqui e ali com sombras onde se podiam descansar os joelhos depois de caminhar. Mas havia o bosque. Lá se ouviam sussurros. E também era onde morava o lobo.

Um dia, a mamãe descansava embaixo de um pé de maçã e o carneiro não conseguia dormir. O sol ia alto e o céu era de um azul muito limpo, exceto por umas nuvens que se escondiam por detrás das colinas, onde a vista não alcança.

O pequeno se levantou devagar para não acordar a mamãe e disparou pelo campo. Corria sem destino, queria sentir o vento roçando os pelos ainda curtos. Correu por um bom tempo, não sabia exatamente o quanto, de modo que já estava fora da vista de mamãe, oculto pelas colinas. Quando deu por si, estava perto do bosque. Havia um cheiro diferente no ar.

O carneirinho ouvia os pássaros cantando calmos lá dentro, estar do lado de fora era chato. Sua mãe sempre o preveniu para que não entrasse no bosque, pois era onde o lobo morava. Uma vez no bosque, não havia saída. Ele não pensava muito no bosque, mas ali os pensamentos enchiam sua cabecinha.

Então, ele viu o lobo, que já o tinha visto. Ele sempre o imaginara diferente. No que lhe cabia, lobos eram sempre pequenos, esqueléticos e pelos longos ou enormes, musculosos e pelos curtos. Aquele era um lobo diferente, não sabia nem mesmo se aquele era um lobo. Era um animal muito bonito, de pelos grisalhos, que apesar de bagunçados, eram muito limpos, e sua estatura era aceitável. Mas seus olhos revelavam uma natureza desconhecida, selvagem talvez. O animal mais bonito que já vira.

O lobo estava muito próximo, seu hálito era de sangue, mas não assustava o pequeno carneiro. As folhas balançavam, os pássaros haviam parado de cantar. O lobo passou pelo carneiro, soltou um rosnado e seguiu em frente. O pequeno se virou e olhava-o maravilhado.

Ao longe, ouviu os berros de sua mãe, que o procurava. O lobo olhou na direção dos berros e abriu bem as narinas. Como continuasse a olhar para o lobo, sobressaltou-se quando este uivou alto. Os berros aumentaram e ele correu na direção deles, oposta do lobo.

Correu por muito tempo, mas não encontrou sua mãe. O sol já se punha, as sombras eram grandes, o ambiente estava cheio de silvos, farfalhar de folhas e já não se podia ver tão longe. O terror enchia o coraçãozinho do pequeno carneiro, o cheiro do hálito do lobo persistia na memória. Por mais que corresse, não sabia de onde vinham os berros da mãe, cada vez mais altos e distantes. Ao descer uma das colinas, o pequeno caiu e rolou para um monte de folhas amontoadas ao pé de uma macieira. Berrou com toda sua forca, queria que aquelas sombras se afastassem. Ouviu passos muito próximos, rápidos, mas não conseguia abrir os olhos. Quem se aproximava vinha rápido, decidido. Berrou mais alto ainda. Agora corria em sua direção.

Enquanto berrava, sentiu uma lambida na sua orelha. Sentia o cheiro de mamãe, mas não conseguia enxergar, pois já estava muito escuro. Adormeceu.

Quando acordou, viu o lobo deitado perto da arvore. O dia era cinzento, feio, o ar cheirava a ferrugem. Ainda sentia o cheiro de mamãe, mas estava muito mais fraco. A bocarra do lobo estava suja de sangue. Então entendeu. Mamãe se fora. Berrou o mais alto que pode, depois teve medo de acordar o animal deitado. Correu o mais que pode, sentia os olhos do lobo acompanharem cada movimento seu, mas corria sem olhar para trás. Correu por muito tempo, ate que a grama deu lugar a uma vegetação mais rasteira e esparsa. O calor era grande, o cheiro de ferrugem havia aumentado. O terreno era solto, cada passo que dava, enterrava os pés na areia.

Foi então que viu o terreno ficar de um azul muito profundo, mas diferente do céu. Havia um rugido alto no ambiente. Não era constante, mas se repetia. O cheiro de ferrugem estava mais forte agora. Aquela imensidão azul parecia querer agarrar a terra, mas sempre recuava.

Não havia meios de voltar para o campo, já não se lembrava da direção que viera. Deitou-se sob a sombra de uma árvore esquisita, muito fina, com galhos verdes e um corpo anelado. Adormeceu, estava muito cansado.

Ao acordar, foi andar pela beira da água e conhecer o lugar. Levou muito tempo para se acostumar, mas agora já sabia se virar. Arrastou alguns galhos caídos para perto da árvore, descobriu quais plantas eram boas de comer, aprendeu a não beber daquela água que fazia barulho. Mas a lembrança do lobo persistia. Não que fosse somente de raiva, havia também um sentimento de maravilha.

O tempo passou e, um dia, o velho cheiro do bosque se fez forte de novo. O pequeno bebia água numa laguna próxima e estava de cabeça abaixada, mas o cheiro era inconfundível. Voltou sua cabeça e viu o lobo, imponente, no alto de uma duna. Este o encarava. O cheiro de mamãe não estava mais lá. O pequeno correu em sua direção, o lobo deitou-se e lambeu-lhe o focinho. O carneiro se assustou. Não esperava que o lobo fosse ter carinho por ele.

O carneiro deitou-se junto do lobo, apoiou sua cabeça no chão e então notou que o lobo estava mais velho, mas ainda estava em seus dias de glória. Mas o carneiro já não era bobo.

A partir de então, os dois sempre foram vistos juntos, o lobo levou-o de volta para o bosque, onde passaram a viver juntos. Conforme o carneiro crescia, o lobo dependia cada vez mais dele. Aquele já se tornava um carneiro grande, bonito, de pelos alvos e isso incomodava este, pois outros lobos já olhavam para ele, mas não se aproximavam.

Um dia, um lobo mais jovem se aproximou do carneiro e lambeu-lhe o focinho. O lobo encheu-se de ódio e avançou no intruso, que cobiçava aquilo que tinha de mais caro. A briga foi feia, o lobo saiu bastante machucado, mas vitorioso. Fez o carneiro vestir-se com a pele do adversário e, desde então, este passou a ser visto como lobo pelos demais animais.

Com o tempo, o lobo foi ficando mais fraco e mais dependente do carneiro, que o tratava como um superior. Os outros lobos avançavam cada vez mais dentro do território do lobo, mas o carneiro não fazia questão de defender as fronteiras, não era de sua natureza nem de sua vontade. Até que um dia foram finalmente expulsos do bosque. O lobo, já quase cego, apenas acompanhava o carneiro pelo cheiro. Este o guiou pelos campos, já sabendo onde queria chegar. Andaram por horas, o lobo já estava muito fatigado de tanto andar. Estava num precipício que acabava sobre o mar. O oceano rugia, atirando-se contra as pedras, com seu abraço de titã.

O lobo parou a beira do precipício e olhou para baixo, não enxergava de onde vinha o barulho. O som de passos muito rápidos vindo em sua direção o assustou e o fez saltar para o lado. A cabeça do carneiro atingiu um cheio suas costelas e o lançou no ar sobre o despenhadeiro. O lobo caiu, imerso em sua própria cegueira, na direção dos rugidos. A água fria o abraçou como a um filhote. Tentou nadar e subir, mas o oceano o arrastava como uma folha na ventania. O carneiro olhava-o se debater do alto do precipício, ate que uma onda arremessou o lobo contra as pedras. O corpo do lobo ainda foi jogado contra o paredão mais algumas vezes, até que foi esquecido em cima de uma pedra, onde ficou.

O carneiro esperou algum tempo para ver se o lobo se mexia. Como nada acontecesse, deu alguns passos para trás e pulou do penhasco. Pensava em mamãe quando sentiu o abraço frio da água.