domingo, 17 de julho de 2011

Temporal

E olhar para aqueles barcos me trazia memórias do tempo bom.

As ondas agitam aqueles cascos, os barcos assustam aquelas gaivotas, os pássaros devoram aqueles peixes, o pescado alimenta aqueles homens. Homens rudes de mulheres saudosas.

O vento sacudiu as palmeiras e invadiu o continente com seu cheiro de sal. Teus cabelos muito negros e tua pele muito lisa, o lençol fino sobre teu corpo nu. O sol nascia atrás dos domínios de Netuno e vinha abraçar as nuvens. Senti inveja do travesseiro por poder amparar tua cabeça.

Seus cabelos com cheiro de canela, o gosto de maresia da tua pele. Abracei tua cintura e apoiei minha cabeça em teu peito nu. Tua respiração de um animal jovem, toda a plenitude de uma amazona que espreita sua caça.

Meus pés nus tocam a areia fria de tanta madrugada. Um galo canta ao longe, insólito. Os gritos ancestrais estouram por toda a praia. Aqueles homens rústicos trazem sua comida e seu sustento, não há muita diferença óbvia entre eles. Suas mãos enérgicas e cansadas recolhem as redes. Gritos de felicidade são ouvidos entre os mais jovens, hoje a pesca foi boa.

Os mais jovens ali aparentam ter 25 anos, apesar de sua baixa estatura, mas conversando com um deles, descubro que têm apenas 13. Seus olhos negros me fitavam no escuro da cabana, a toalha de desenrolara de teu corpo e ficara no chão.

Os peixes se debatem como se aplaudissem aqueles homens. Você acende um cigarro e me fita mais uma vez.

Seu corpo forte ficava ainda mais bonito contra a luz da lua. Seus longos cabelos desenrolam-se, revoltosos, abaixo de seus ombros. “Parece o mar numa tempestade de noite.” Você sorriu. Alguns fios grudaram ao seu rosto molhado. Você sentou no meu colo e colocou seus braços ao redor do meu pescoço.

O cigarro aceso queima em silêncio, brilhando mais forte quando o vento chega. Os homens trazem as redes para a areia e começam a matar sua plateia ali mesmo. Com pequenos canivetes de cabo gasto, rasgam a barriga dos peixes, que tentam se soltar num último esforço pela vida, e retiram suas tripas com os dedos grossos. O cheiro de sangue toma conta da praia. Os homens, sujos de sangue, a areia, suja de sangue, os peixes que se debatiam, sujos de sangue. Os pássaros corriam de um lado para o outro, desorientados com aquele festival. Comiam coração estômago intestino. Bicavam fígado baço peixe.

O suor confundia-se com a água de mar em suas testas. Você me beijou com seu hálito de café. Corpos negros abaixados executavam seu trabalho, entoavam suas canções de tempos antigos. Seu corpo moreno confundia-se com o meu.

Coloquei minha mão sobre teu seio e apertei com cuidado. Você colocou minha outra mão na sua cintura. Suas pernas abriram-se sobre minhas coxas, como uma amazona em seu cavalo. A luz da lua entrou pela janela e fixou-se no chão a nossa frente. A cadeira de madeira rangeu sob nosso peso. Você ajeitou sua virilha e a levou de encontro à minha. Estava molhada. Você estremeceu quando o contato, tão antigo quanto se podia ser, aconteceu. Você me beijou enquanto gemeu. Aquele movimento extraiu minha força aos poucos, você se moveu mais rápido e mais rápido e mais rápido. Você pareceu uma leoa jovem. Você estremeceu como se tivesse levado um choque e suas unhas longas entraram nas minhas costas. Aquilo fez algo explodir em mim e encher tuas pernas lisas.

Os marinheiros agora limpavam suas facas impiedosas e prendiam aquela multidão de cadáveres em pequenos paus com linhas, divididos em grupos de dez. As gaivotas regozijavam-se com os poucos restos na areia. Os peixes pareciam encarar a eternidade com seu grandes olhos redondos. As mulheres vinham à praia, olhavam ansiosas para a arrebentação das ondas, como se fizessem uma prece surda. Iemanjá perdoara seus maridos dessa vez.

Iemanjá ia-se embora quando olhou para trás pela última vez. Agora eu sabia: você tinha os cabelos da Rainha do Mar. Iemanjá virou-se em minha direção e olhou-me. Você me encarava no escuro.

Corri o quanto pude. A água já chegava à cintura. O sol me beijava o rosto. Os homens me olhavam, confusos. As mulheres me olhavam, compreensivas. As crianças assustavam as gaivotas.

Enquanto eu corria para os braços de Iemanjá, eu olhei para trás e vi você.

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