A Besta das Muitas Mãos me encarava através de Oníria. Sentia que estava no estado de torpor entre o da sonolência e o da embriaguez. Não olhava em seus olhos, mas sentia que queria devorar minha alma. E poderia, ainda que suas mãos estivessem acorrentadas.
A Besta me caçava há pouco tempo, o Deus de Galhos ainda corria entre as montanhas e o Salvador ainda não estava na cruz quando ela em achou pela primeira vez. Não aceitaria a coleira que lhe impus. Àquela época ainda tinha forças para lutar, mas em Kayros minha força se esvaiu, e agora ali, no Limbo, eu percebi que não conseguiria mais.
As sombras dançavam ante meus pés, mas não passavam do Umbral. Elas gritavam como uma plateia ensandecida, pois eu as havia colocado lá. Essa era sua vingança.
Alguém iria pagar por isso, e nesse momento era eu. Seu enorme corpo movimentava-se por trás do Éter quando senti. Foi então que vi o Deus dos Grandes Galhos a impedir aquele gládio. A Besta estava morta, seu sangue deu origem ao Mar Vermelho quando escorreu por Chronos.
Os cascos do deus ainda ecoavam pelo Cáucaso quando decidi que era hora de mudar. Chronos se distorcia ante meus olhos, mas Kayros era pleno.
Foi então que me tornei caçador.
sexta-feira, 7 de agosto de 2009
terça-feira, 4 de agosto de 2009
Inquebrantável.
A água do poço seguia sua eternidade calma. Tinha algo de mágico. Salobre, levemente azulada. Dizia-se que era obra de algum imigrante, pois o costumeiro da região era buscar a água no riacho.
O ar ali pouco se renovava, era um entorpecente natural. Não se usava muito aquele poço para nada, era apenas um poço no meio do pasto da imensidão pampeira. O gado era levado para beber água no rio, quem vivia na estância mandava que os peõs buscassem. Ali o movimento era pouco.
Sob um dia de marcha uma tropa por ali passou. Não se sabia se era blanca ou colorada. Não queria tomar parte em nenhum dos lados, já estivera em uma ou duas guerras, isso bastava.
"-E tu... vais te esconder?"
Fingiu não escutar. Mas ia se esconder no fundo do poço, onde o ar não se renova e a água tem vida. Permaneceria por horas, o quanto fosse necessário.
O silêncio, a escuridão e a pedra, associados como para sempre, cingiam-se progressivamente acima de sua cabeça e ao redor de seu corpo frouxo.
E ali permaneceu, a água era fresca, o ciclo inquebrantável.
Nesse poço matou-se após verificar o filho castrado e a mulher abusada por muitos. O triste fim de Martiniano Ríos no poço de água cordial.
O ar ali pouco se renovava, era um entorpecente natural. Não se usava muito aquele poço para nada, era apenas um poço no meio do pasto da imensidão pampeira. O gado era levado para beber água no rio, quem vivia na estância mandava que os peõs buscassem. Ali o movimento era pouco.
Sob um dia de marcha uma tropa por ali passou. Não se sabia se era blanca ou colorada. Não queria tomar parte em nenhum dos lados, já estivera em uma ou duas guerras, isso bastava.
"-E tu... vais te esconder?"
Fingiu não escutar. Mas ia se esconder no fundo do poço, onde o ar não se renova e a água tem vida. Permaneceria por horas, o quanto fosse necessário.
O silêncio, a escuridão e a pedra, associados como para sempre, cingiam-se progressivamente acima de sua cabeça e ao redor de seu corpo frouxo.
E ali permaneceu, a água era fresca, o ciclo inquebrantável.
Nesse poço matou-se após verificar o filho castrado e a mulher abusada por muitos. O triste fim de Martiniano Ríos no poço de água cordial.
domingo, 2 de agosto de 2009
Notre grand amour est mort
Naquele momento percebi que passaria a eternidade sem você.
Justo, de fato, não era. Não conhecíamos ninguém que houvesse amado como nós, mas ali naquele momento isso era o que menos importava afinal, as portas do céu se abriam para você. E eu não tinha esse privilégio.
Tolice, meu caro. Segurando sua febril face eu via isso, ali era o fim. Nossas almas seguiriam separadas por Kayros, o nosso Chronos findava-se ali. Diante da plenitude eu estremeci.
Bobagem, depois de duas ou três décadas todas aquelas memórias seriam apagadas. Nada mais restaria, e quando meu coração colocado na balança não pesar teu amor, eu já teria te esquecido há muito.
Fitou-me com seus olhos tristes. Para ti, o gozo eterno. Para mim, o eterno suplício.
Por que você tinha que ser tão importante?
Já não há palavra que se diga que há de fazer-me arredar pé daqui. Do seu sangue, quero a última gota. De teu ar, teu último suspiro. Não me prive disto.
Justo, de fato, não era. Não conhecíamos ninguém que houvesse amado como nós, mas ali naquele momento isso era o que menos importava afinal, as portas do céu se abriam para você. E eu não tinha esse privilégio.
-Eu fico com ele - disse Razumíkhin - Não o deixarei um só momento
Tolice, meu caro. Segurando sua febril face eu via isso, ali era o fim. Nossas almas seguiriam separadas por Kayros, o nosso Chronos findava-se ali. Diante da plenitude eu estremeci.
- É a pessoa de quem mais gosto no mundo - afirmou Pólienhka
Bobagem, depois de duas ou três décadas todas aquelas memórias seriam apagadas. Nada mais restaria, e quando meu coração colocado na balança não pesar teu amor, eu já teria te esquecido há muito.
O ferido abriu os olhos e,
Fitou-me com seus olhos tristes. Para ti, o gozo eterno. Para mim, o eterno suplício.
- Sangre-o, senhor doutor.
Por que você tinha que ser tão importante?
- Olha Rodka, eu reconheço que tu és inteligente, mas
Já não há palavra que se diga que há de fazer-me arredar pé daqui. Do seu sangue, quero a última gota. De teu ar, teu último suspiro. Não me prive disto.
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