terça-feira, 4 de agosto de 2009

Inquebrantável.

A água do poço seguia sua eternidade calma. Tinha algo de mágico. Salobre, levemente azulada. Dizia-se que era obra de algum imigrante, pois o costumeiro da região era buscar a água no riacho.
O ar ali pouco se renovava, era um entorpecente natural. Não se usava muito aquele poço para nada, era apenas um poço no meio do pasto da imensidão pampeira. O gado era levado para beber água no rio, quem vivia na estância mandava que os peõs buscassem. Ali o movimento era pouco.
Sob um dia de marcha uma tropa por ali passou. Não se sabia se era blanca ou colorada. Não queria tomar parte em nenhum dos lados, já estivera em uma ou duas guerras, isso bastava.

"-E tu... vais te esconder?"

Fingiu não escutar. Mas ia se esconder no fundo do poço, onde o ar não se renova e a água tem vida. Permaneceria por horas, o quanto fosse necessário.

O silêncio, a escuridão e a pedra, associados como para sempre, cingiam-se progressivamente acima de sua cabeça e ao redor de seu corpo frouxo.

E ali permaneceu, a água era fresca, o ciclo inquebrantável.

Nesse poço matou-se após verificar o filho castrado e a mulher abusada por muitos. O triste fim de Martiniano Ríos no poço de água cordial.

Nenhum comentário: