Quando eles se sentaram para jantar, reparou tarde demais que o garfo estava no lugar da faca e esta dentro do copo.
Uma gota de suor por sua têmpora cor-de-chão. Estava acabada.
Correu para a cozinha e fechou a porta atrás de si. O coração bateu depressa e uma rede de artérias pulsava em seu rosto. Um erro grosseiro, em trinta e quatro anos de servidão nunca tinha cometido um erro daquele. Talvez fossem trinta e três ou trinta e cinco. Os cabelos brancos, esparsos em seu negrume habitual, eram testemunhas de sua escravidão da etiqueta.
O que mais teria feito de errado? Escancarou armários, geladeiras, gavetas, passado & coração. Súbito, tudo estava fora do lugar. Exceto a farinha e o juízo, este por ser massa amorfa, aquela por ser pulverizada, vice-versa, coisa e tal.
Estava perdendo a sensatez, tirou o avental. Os grilhões se soltaram repentinos e Adélia caiu contra a parede vazia.
Correu para o quarto, arrumou suas malas. Jogou tudo em um balaio de palha trançada e cogitou colocá-lo sobre as ventas, mas acabou colocando sobre a cômoda. Dona de si e de coisa alguma, Adélia foi passar um batom nesse bico e pentear essa juba crespa. Estava a própria Maria Louca.
Seus ouvidos entoaram a mesma e velha deste reino polaco perdido de onde viria. Príncipe Odilon que se ajeitasse lá pelas bandas de Zanzibar e cuidasse para não cair nas redes de canga. Um raio de liberdade correu sua cara, o grito de Um Átila moribundo afogou-se na garganta.
Correu pelo jardim, claro do sol, mas não achou o portão. Corria sempre na direção oposta daquela desejada e paralela àquela que deveria ir. Alcançou o muro de pedra que era sua gaiola.
Tentou escalar a parede, mas era liso por demais em algumas partes e nas demais o desespero rasgava seus joelhos quando se aproximava do alto.
A angústia crescia. Sua respiração era a de um animal jovem que agonizava. Sentia as vistas escurecendo e se via correndo atrás de preás. Só faltavam-lhe os latidos.
Alcançou os pesados portões de metal. Era pequena demais para pulá-los e grande demais para passar por entre as barras da grade. Olhou are redor como quem procura garrafa pedaço de bolo cogumelo.
Meteu o chaveiro cheio de penduricalhos na fechadura e girou-a. “Jesus te ama”, prometia um deles. Os portões abriram-se apenas o bastante para que passasse, mas não sem rasgar o vestidinho de chitão roxo numa ponta meio enferrujada.
Adélia era: dona-de-si, de liberdade, ex-donadecasacomidaroupa. Só não tinha caminho de volta. Vasculhou o vestido sem bolso e caiu em si.
Adélia tinha liberdade, só não tinha onde enfiá-la.
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