quinta-feira, 8 de março de 2012

Meninos do Cais

Menino Só é um desses que trazem um violão nos braços e ideias na cabeça. É desses que, quando cantam, falam na alma da gente, batem fundo mesmo.

Menino Só é um desses que a gente vê deitados na areia da praia pensando nas estrelas ou nas morenas da canela fina que vêm vender cocadinha no calçadão.

Menino Só é um desses que trazem a cantoria e o amor tatuados no peito. Falam bonito, falam com voz de querubim ébrio, tocam como um Miles Davis do cais. É desses que quebram pescoço das mocinhas ricas com sua beleza dura queimada de sol.

Menino Só é um desses que são Marlon Brando do Caribe Sul, o sangue mulato rugindo nas veias. É um desses que, quando fumam, fazem o olho da gente encher.

Menino Só é um desses que jogam capoeira sábado à tardinha no cimo da ladeira. É desses que gingam, que bolem, que sambam.

Menino Só é um desses que cantam Gil ou Caê em porta de bar. Bethânia, Gal, Chico, Tom. É um desses que nunca vão crescer.

Menino Só é um desses que não cavam confusão, que puxam faca só quando o cabra enxerga ferrão de abelha no mel. É um desses que descem a rua com a tez quente de cachaça e dão bom dia pros alibãs.

Menino Só é um desses que fumam o cigarro na esquina no fim de tarde, que se enrabicham com as amapôas na rua.

Menino Só é um desses que morrem de tiro corno (Ai! Maldade) às seis da tarde e jazem no chão enquanto o sangue corre e a gente perde o juízo.

Menino Só é um desses que deixam Mãe Só, deixam saudade amargando nas moreninhas de saia, saudade no coração das senhoras de favela donde se ouve o quebra-mar.

Menino Só é desses que Iemanjá leva para brincar.

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