terça-feira, 26 de agosto de 2008

Para ler e Ouvir.

Tchaikovsky - Polca op. 117

Ana abriu os olhos, tirou sua camisola verde e deliciou-se dando piruetas nua pelo quarto. Girou com os braços abertos e parou. Parou na frente do espelho e olhou-se por completo. Curvou-se como se convidasse seu reflexo para uma dança. Valsou pelo quarto e foi até a sacada, quando viu que seus irmãos brincavam no jardim. Correu a esconder-se atrás das grandes cortinas de veludo e deitou-se na cama.
Ana abriu os olhos e vestiu seu vestido branco, que julgou adequado para uma manhã primaveril. Dançou nas pontas dos pés, calçou seus belos sapatos de cetim roxo e prendeu os cabelos num gracioso rabo-de-cavalo. Girou e rodopiou em direção às pesadas portas de marfim louro, deteve-se por uns instantes e arrulhou deliciosamente.
Ana abriu os olhos e desceu as escadas dançando e pulando de quatro em quatro degraus e deteve-se para mandar um beijinho para as pétreas gárgulas, humildemente curvadas, ajoelhadas ao fim da escada.
Ana abriu os olhos e saltitou em direção à sala de jantar, onde seu café-da-manhã sempre era servido. Empurrou as portas de cedro e deteve-se por alguns segundos. O aroma dos cravos-de-defunto invadiu suas narinas e -la esquecer a fome por uns instantes.
Ana abriu os olhos e viu que seu estômago roncava. Colocou as mãos ao redor da fina cintura e correu até a mesa. Pegando uma maçã da bem fornida mesa deu apenas uma pequena mordida a fim de sentir sua fina e delicada casca romper-se entre os dentes.
Ana abriu os olhos e correu pelo imenso cômodo a rolar o cheiroso fruto pelas mãos. Parou em frente a um vaso de flores, apartou um cravo, cujas pétalas começavam a murchar, e colocou-o entre os cabelos.
Ana abriu os olhos e chegou ao jardim no exato momento em que seus irmãos caíram sobre uma estátua de anjo, cuja cabeça rolou pelos chão de tacos. Ana fechou os olhos com o barulho e caiu ao chão.
Ana abriu os olhos e deu palmadinhas no vestido para limpá-lo. Correu pelo jardim em direção ao bosque escuro. Correu por entre árvores e dançou por entre mariposas adormecidas. Um focinho canino farejou-a e latiu.
Ana fechou os olhos e parou no meio de uma pirueta. Um disparo foi ouvido e Ana foi ao chão. O guarda-caças do castelo percebeu ser Ana e correu até seu corpo inerte. O cravou rolou-lhe dos cabelos e uma lágrima beijou-lhe a face. Ana fora dormir.

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