Peter andava pela silenciosa e escura charneca tremendo de frio. York ficava especialmente fria naquela época do ano, mas naquele ano de 1850 o inverno veio um pouco mais rigoroso, como se anunciasse o fim de uma era. Ou o começo de outra.
A ricas famílias inglesas construíam suntuosos solares na região mas certamente a que chamava mais atenção era a residência de verão da família de Peter. Ao abrir o pesado portão de ferro fundido ele percebeu que a noite estava incomumente clara, a lua parecia imensa e tinha-se a impressão de que podia-se tocá-la com os dedos.
Peter passou apressado pelas gárgulas humildemente curvadas a quem quer que passasse, seus rostos tinham a expressão sombria de quem acompanha um enterro. Havia quase dois quilômetros de distância entre o portão e as portas de seu palacete. Agora já não se lembrava qual fora a grande motivação em sair àquela hora da noite, às pressas, para ir ao solar da família de Ulrich.
No auge de seus quinze verões de idade, Peter não era um grande exemplo de temperança. Desde suas constantes brigas com os colegas na exclusiva escola que frequentava em Londres, até seu relacionamento secreto com Ulrich, seu melhor amigo, Peter não gostava de medir suas ações. Seus segredos eram guardados sem grandes esforços, graças a liberdade concedida pelos pais, mas negada às irmãs que eram vigiadas por damas-de-companhia durante todo o tempo.
Peter andava completamente imerso em pensamentos que não percebeu o grande ser que se aproximava em um galope furioso pelo imenso e bem-cuidado jardim.
Os olhos cor de cristal de Ulrich estavam em sua mente quando o mastim do tamanho de um bezerro pulou em sua frente rosnando. Tomado de susto, Peter sentiu os pés grudarem no chão. Estava acabado.
O belo garoto começou a correr em direção a sua casa enquanto era perseguido por aquele demônio de quatro patas. Já via os contornos do castelo quando seu pai apareceu. Imediatamente o cão deitou-se com o rabo entre as patas.
-Pai! Eu pensei que ia...-Peter ofegava e correu para os braços do pai quando sentiu a bofetada arder em seu rosto.
Confuso com o acontecido, pois seu pai jamais lhe batera, peter vacilou o passo e caiu no chão.
-Não me chame de pai, seu bastardo. Eu já sei de tudo sobre vocês. - o pai tirou a cabeça de Ulrich de um saco de couro. Seus olhos estavam tomados de horror e a base do crânio ainda gotejava o sangue de onde o pescoço fora cortado. -Você era tão promissor, meu único herdeiro...
-Pai, não! - com um sinal do pai, o mastim se lançou com toda sua bocarra negra no pescoço de Peter arrancando-o de uma só mordida.
O pai olhou para o corpo inerte do filho na bocarra do cão e virou-se. Já não havia motivos para estar ali.
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